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Gramática aplicada

Colocação pronominal sem decoreba

Leitura de 7 min•5 exercícios comentados•

Na conversa, todo brasileiro coloca o pronome antes do verbo sem pensar: “me passa o sal”, “te ligo depois”, “se machucou?”. Na escrita formal, essas mesmas frases pedem outra ordem, e daí vem a sensação de que colocação pronominal é uma lista interminável de exceções. Não é. Há uma lógica de poucas peças por trás das posições do pronome, e este artigo a apresenta sem exigir memorização, separando regra da norma escrita e hábito da fala.

Três posições, uma lógica

Os pronomes oblíquos átonos (me, te, se, o, a, lhe, nos, vos, os, as, lhes) podem ocupar três posições em relação ao verbo: antes dele (próclise: “não me avisaram”), depois dele (ênclise: “avisaram-me”) ou no meio dele (mesóclise: “avisar-me-ão”). Esses pronomes não têm acento próprio e se apoiam no verbo, por isso sua posição depende do que está em volta.

A lógica da norma escrita pode ser resumida em duas ideias. Primeira: se existe antes do verbo uma palavra que “atrai” o pronome, usa-se próclise. Segunda: se não existe, a posição padrão é a ênclise, com a mesóclise reservada para dois tempos do futuro. Tudo o mais é desdobramento disso.

Palavras atrativas: quando a próclise é obrigatória

Certas palavras, quando vêm antes do verbo, puxam o pronome para perto de si. As principais são:

  • palavras de sentido negativo: não, nunca, jamais, nada, ninguém (“ninguém me contou”);
  • advérbios sem vírgula depois: já, ainda, sempre, talvez, aqui, hoje (“sempre se atrasa”);
  • pronomes relativos: que, quem, onde, cujo (“o vizinho que nos ajudou”);
  • pronomes indefinidos: alguém, todos, tudo, poucos (“todos se levantaram”);
  • conjunções subordinativas: quando, se, embora, porque, que (“avise se te chamarem”).
Evite
Os moradores que reuniram-se ontem não decidiram-se ainda.
Prefira
Os moradores que se reuniram ontem ainda não se decidiram.
Por quê: O relativo “que” e a negação “não” atraem o pronome. A ênclise depois de palavra atrativa é um dos deslizes mais visíveis em texto formal.

Também pedem próclise as frases exclamativas e optativas (“Bons ventos o levem!”), as interrogativas iniciadas por pronome ou advérbio interrogativo (“Quem te avisou?”) e a construção “em” + gerúndio (“em se tratando de prazos”). Quando o advérbio vem seguido de vírgula, a atração desaparece: “Ontem, encontrei-o no mercado”.

Ênclise: início de frase, imperativo e gerúndio

Sem palavra atrativa, a escrita formal usa a ênclise. O caso mais importante é o início de frase ou de oração depois de pausa: a norma não admite começar período com pronome átono. “Me parece uma boa ideia” é frase da fala; no papel, “Parece-me uma boa ideia”. O mesmo vale depois de ponto e vírgula ou de vírgula que isola um termo.

Também há ênclise com o imperativo afirmativo (“Sente-se, por favor”; no negativo, próclise: “Não se sente aí”), com o gerúndio sem “em” e sem negação (“Saiu deixando-nos a conta”) e, em geral, com o infinitivo impessoal (“Era preciso avisá-la”). Com infinitivo precedido de preposição ou de negação, as duas posições são aceitas: “para me ajudar” ou “para ajudar-me”.

Evite
Me entregaram o pacote errado. Avise-os, por favor, que ninguém atendeu-os.
Prefira
Entregaram-me o pacote errado. Avise-os, por favor, de que ninguém os atendeu.
Por quê: No início do período, ênclise. “Avise-os” está certo porque é imperativo afirmativo sem atrativo. Já “ninguém” atrai o pronome: “ninguém os atendeu”.

Na ênclise, os pronomes “o”, “a”, “os”, “as” mudam de forma. Depois de verbo terminado em -r, -s ou -z, viram “lo”, “la”, “los”, “las”, e a terminação cai: “encontrar + a” dá “encontrá-la”; “fiz + o” dá “fi-lo”. Depois de som nasal (-m, -ão, -õe), viram “no”, “na”: “chamaram-no”, “põe-na”.

Mesóclise e locuções verbais

A mesóclise só ocorre com o futuro do presente e o futuro do pretérito, e só quando não há palavra atrativa: “Enviar-lhe-ei o contrato”, “Dir-se-ia que ele sabia”. Com atrativo, a próclise vence: “Não lhe enviarei o contrato”. O que a norma não aceita é a ênclise nesses tempos: “enviarei-lhe” está errado em qualquer situação. Como a mesóclise soa artificial no Brasil de hoje, a saída elegante é reformular: “Vou lhe enviar o contrato”.

Nas locuções verbais (auxiliar + infinitivo ou gerúndio), há três posições aceitas: antes do auxiliar quando existe atrativo (“não lhe quero dizer”), depois do auxiliar com hífen (“quero-lhe dizer”) ou depois do verbo principal (“quero dizer-lhe”). A colocação brasileira mais comum, próclise ao verbo principal sem hífen (“quero lhe dizer”), é hoje amplamente aceita.

Evite
O síndico tinha avisado-nos sobre a obra, mas ninguém tinha se lembrado.
Prefira
O síndico tinha-nos avisado sobre a obra (ou: nos tinha avisado), mas ninguém se tinha lembrado.
Por quê: Com auxiliar + particípio, o pronome nunca se liga ao particípio. Fica depois do auxiliar ou, se há atrativo como “ninguém”, antes dele.

Fala brasileira e escrita formal: o que muda de verdade

No português falado no Brasil, a próclise é praticamente geral, inclusive em início de frase. Isso não é erro na conversa, em mensagens informais nem em diálogos de narrativa. A norma escrita se afasta disso em poucos pontos, que valem a pena fixar:

  1. não iniciar frase com pronome átono;
  2. respeitar as palavras atrativas, usando próclise depois delas;
  3. não usar ênclise com futuro do presente ou do pretérito;
  4. não ligar pronome ao particípio.

Exercícios comentados

Tente responder antes de abrir cada resposta. O comentário explica o raciocínio, que vale mais do que o gabarito.

1Reescreva de acordo com a norma escrita: “Me avisaram que a reunião mudou de sala.”Ver resposta

Resposta: Avisaram-me de que a reunião mudou de sala. (Ou: Fui avisado de que a reunião mudou de sala.)

Comentário: Frase não começa com pronome átono na escrita formal, por isso o pronome passa para depois do verbo. A reformulação com voz passiva também resolve o problema sem recorrer à ênclise.

2Está correta a frase “A professora que indicou-me o livro ainda não respondeu”? Justifique.Ver resposta

Resposta: Não. O correto é “A professora que me indicou o livro ainda não respondeu”.

Comentário: O pronome relativo “que” é palavra atrativa, e a próclise se torna obrigatória. A ênclise depois do relativo é um dos erros mais frequentes em textos formais.

3Escolha a opção adequada à norma: (a) “Entregarei-lhe o relatório amanhã.” (b) “Entregar-lhe-ei o relatório amanhã.” (c) “Vou lhe entregar o relatório amanhã.”Ver resposta

Resposta: As opções (b) e (c). A opção (a) está errada.

Comentário: Com futuro do presente não existe ênclise. A mesóclise (b) está correta, mas soa artificial; a locução verbal (c), com próclise ao verbo principal, é natural e aceita.

4Corrija a colocação: “Ninguém tinha lembrado-se do aniversário do porteiro.”Ver resposta

Resposta: Ninguém se tinha lembrado do aniversário do porteiro. (Ou: Ninguém tinha se lembrado, forma brasileira corrente.)

Comentário: O pronome não pode ligar-se ao particípio “lembrado”. Como “ninguém” é palavra atrativa, a posição mais formal é antes do auxiliar. A próclise ao particípio sem hífen é comum no Brasil e tolerada em registros menos rígidos.

5Complete com o pronome “a” na forma e posição corretas: “Quando encontrar a chave, é só devolver ___ na portaria.”Ver resposta

Resposta: devolvê-la

Comentário: Com infinitivo terminado em -r, o pronome “a” toma a forma “la”, o -r cai e o verbo recebe acento para marcar a sílaba tônica: devolvê-la. Como não há palavra atrativa imediatamente antes do infinitivo, a ênclise é a posição padrão.

Resumo do artigo

  • Palavra atrativa antes do verbo (negação, advérbio, relativo, indefinido, conjunção subordinativa) exige próclise.
  • Sem atrativo, a escrita formal usa ênclise, sobretudo no início de frase, no imperativo afirmativo e no gerúndio.
  • Mesóclise só existe no futuro do presente e do pretérito sem atrativo; ênclise nesses tempos é sempre erro.
  • Em locuções verbais, o pronome nunca se liga ao particípio; nas demais, várias posições são aceitas.
  • A próclise geral da fala brasileira é legítima na conversa e em diálogos; na escrita formal, evite começar frase com pronome.

Perguntas frequentes

Posso começar frase com “me” em uma redação?

Não, se o registro for formal. Use ênclise (“Parece-me”) ou reformule a frase para que o verbo não a abra (“A proposta me parece boa”).

“Vou te ligar” está errado?

Na fala e em mensagens, não. Em texto formal, a construção “vou ligar para você” ou “ligarei para você” evita tanto a mistura de pessoas quanto a dúvida de colocação.

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