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Ortografia

Hífen depois do Acordo Ortográfico: o que mudou de verdade

Leitura de 7 min•5 exercícios comentados•

Poucos temas ortográficos geram tanta insegurança quanto o hífen. Mesmo quem escreve bem hesita diante de “microondas” ou “micro-ondas”, “autoestima” ou “auto-estima”, e muita gente ainda carrega regras antigas aprendidas antes do Acordo Ortográfico de 1990, obrigatório no Brasil há alguns anos. A reforma mexeu principalmente nas palavras formadas por prefixo e em alguns compostos, mas deixou de pé uma boa parte do que já valia. Neste artigo, o site Redação Popular organiza as regras que resolvem a maioria das dúvidas, com exemplos próprios e uma lista dos casos que mudaram de verdade.

A regra das letras iguais: o coração da mudança

O Acordo criou um princípio simples para palavras formadas por prefixo: letras iguais se separam, letras diferentes se juntam. Se o prefixo termina com a mesma vogal com que a palavra seguinte começa, entra o hífen. Se as vogais são diferentes, as duas partes se unem sem hífen. O mesmo vale para consoantes: prefixo terminado em consoante seguido de palavra que começa pela mesma consoante pede hífen.

Evite
O microondas da copa parou de aquecer.
Prefira
O micro-ondas da copa parou de aquecer.
Por quê: O prefixo “micro” termina em “o” e “ondas” começa com “o”. Vogais iguais, hífen obrigatório. O mesmo acontece em “anti-inflamatório”, “contra-ataque” e “auto-observação”.
Evite
Fiz a matrícula na auto-escola do bairro.
Prefira
Fiz a matrícula na autoescola do bairro.
Por quê: “Auto” termina em “o” e “escola” começa com “e”. Vogais diferentes se juntam, como em “autoestima”, “infraestrutura”, “extraoficial” e “antiaéreo”.

Com consoantes, a lógica é a mesma. “Inter” mais “regional” dá inter-regional; “super” mais “resistente” dá super-resistente; “sub” mais “base” dá sub-base. Já “inter” mais “estadual” forma interestadual, e “super” mais “interessante” forma superinteressante, porque consoante seguida de vogal se junta.

Quando a vogal encontra r ou s: a consoante dobra

Uma consequência da regra anterior pegou muita gente de surpresa. Quando o prefixo termina em vogal e a palavra seguinte começa com r ou s, não há hífen, e a consoante é dobrada para manter o som original. Antes da reforma, escrevia-se “anti-social” e “auto-retrato”; hoje, as formas são antissocial e autorretrato.

  • Com “s” dobrado: minissaia, ultrassom, autosserviço, contrassenso, microssistema.
  • Com “r” dobrado: antirrugas, contrarregra, semirreta, suprarrenal, autorregulação.
Evite
O exame de ultra-som foi marcado para quinta.
Prefira
O exame de ultrassom foi marcado para quinta.
Por quê: “Ultra” termina em vogal e “som” começa com “s”. Sem hífen, o “s” dobra para que a pronúncia não vire o som de “z”.

Prefixos com comportamento próprio: pré, pós, co, re, sub e companhia

Alguns prefixos não seguem apenas a regra das letras iguais. Vale conhecê-los um a um, porque são justamente os mais usados em textos escolares e profissionais.

PrefixoRegraExemplos
pré, pós, pró (com acento)sempre com hífen, por serem tônicospré-vestibular, pré-natal, pós-graduação, pós-operatório, pró-reitoria
pre, pos, pro (sem acento)sempre juntos, por serem átonospredeterminar, pressupor, pospor, promover
cosempre junto, mesmo diante de “o” ou “h”coautor, coordenar, coobrigação, coerdeiro
resempre junto, mesmo diante de “e”reescrever, reeleição, reedição, reaver
subhífen diante de b, r e h; junto nos demais casossub-base, sub-reitor, sub-humano, subsolo, subemprego
ex, vice, recém, além, aquém, semsempre com hífenex-aluna, vice-diretor, recém-nascido, além-mar, sem-teto
qualquer prefixo diante de hhífenanti-higiênico, super-homem, pré-história, sobre-humano
Evite
A co-autora do projeto fez a pós graduação fora.
Prefira
A coautora do projeto fez a pós-graduação fora.
Por quê: “Co” se junta sempre, sem hífen, assim como “re” (reescrever), que também escapa da regra das vogais iguais. Já “pós”, com acento e tônico, exige hífen em qualquer palavra que forme.

Palavras compostas: o que se mantém com hífen

Fora do campo dos prefixos, o hífen continua ligando palavras compostas que formam uma unidade de sentido e não têm elemento de ligação entre si: guarda-chuva, segunda-feira, beija-flor, arco-íris, couve-flor, porta-malas, bate-papo. A regra geral é que, se duas palavras se unem diretamente e juntas significam uma coisa só, o hífen fica.

Compostos com preposição ou outro conectivo no meio, em geral, perderam o hífen: fim de semana, pé de moleque, mão de obra, cão de guarda, dona de casa, cor de vinho. O Acordo preservou o hífen em poucas expressões já cristalizadas, como “água-de-colônia”, “cor-de-rosa”, “pé-de-meia”, “mais-que-perfeito” e “arco-da-velha”, e também em nomes de plantas e animais, como “cana-de-açúcar”, “bem-te-vi”, “pimenta-do-reino” e “erva-doce”.

Evite
Comprei um bolo de pé-de-moleque na feira de fim-de-semana.
Prefira
Comprei um bolo de pé de moleque na feira de fim de semana.
Por quê: As duas expressões têm a preposição “de” como elemento de ligação e não estão na lista de exceções, portanto se escrevem sem hífen.

As formas com bem e mal também seguem lógica própria: “bem” forma hífen com vogal, “h” e com a maioria das consoantes (bem-estar, bem-humorado, bem-vindo), com poucas formas aglutinadas, como “benfeito” e “benquisto”. Já “mal” leva hífen só diante de vogal, “h” ou “l” (mal-estar, mal-humorado, mal-limpo) e se junta nos outros casos: malcriado, malfeito, maltratado.

Os casos que perderam o hífen e o que não mudou

Algumas palavras muito comuns mudaram de cara porque a noção de composição se apagou com o uso. O exemplo mais lembrado é “pára-quedas”, que perdeu o acento e o hífen e virou paraquedas (e paraquedista). Na mesma situação estão mandachuva, pontapé, girassol e madressilva. A locução “dia-a-dia” passou a dia a dia em todos os usos, inclusive como substantivo: “o dia a dia do escritório”.

  1. Continuam com hífen: pronomes ligados ao verbo (entregou-me, vê-lo), adjetivos pátrios compostos (luso-brasileiro) e a divisão de sílabas no fim da linha.
  2. Perderam o hífen: compostos com elemento de ligação não cristalizados, prefixos diante de vogal diferente e prefixos diante de “r” e “s”.
  3. Ganharam hífen: prefixos diante de vogal igual, como micro-ondas e anti-inflamatório.

Exercícios comentados

Tente responder antes de abrir cada resposta. O comentário explica o raciocínio, que vale mais do que o gabarito.

1Escolha a forma correta: “antiinflamatório”, “anti-inflamatório” ou “antinflamatório”.Ver resposta

Resposta: anti-inflamatório

Comentário: O prefixo “anti” termina em “i” e a palavra “inflamatório” começa com “i”. Pela regra das vogais iguais, entra o hífen. Nenhuma letra é suprimida nem dobrada.

2Escolha a forma correta: “auto-estima”, “autoestima” ou “autoéstima”.Ver resposta

Resposta: autoestima

Comentário: “Auto” termina em “o” e “estima” começa com “e”. Vogais diferentes se juntam sem hífen, e a palavra resultante não ganha acento, pois continua paroxítona terminada em “a”.

3Reescreva corrigindo: “A semi-reta e o contra-senso apareceram na mesma prova de mini-saia.”Ver resposta

Resposta: A semirreta e o contrassenso apareceram na mesma prova de minissaia.

Comentário: Nos três casos, o prefixo termina em vogal e a palavra seguinte começa com “r” ou “s”. A regra manda juntar e dobrar a consoante para preservar o som: semirreta, contrassenso, minissaia.

4Reescreva corrigindo: “O sub-solo foi inter-ditado após a inter-venção da sub-prefeitura.”Ver resposta

Resposta: O subsolo foi interditado após a intervenção da subprefeitura.

Comentário: Prefixo terminado em consoante seguido de letra diferente se junta: “sub” antes de “s” e de “p”, “inter” antes de “d” e de “v”. O hífen com “sub” só aparece diante de “b”, “r” e “h”.

5Qual é a grafia atual de “pára-quedas” e de “dia-a-dia”?Ver resposta

Resposta: paraquedas e dia a dia

Comentário: “Paraquedas” perdeu o acento diferencial de “pára” e também o hífen, porque a palavra passou a ser sentida como uma unidade. “Dia a dia” perdeu o hífen por ser locução com elemento de ligação, e se escreve assim tanto como advérbio quanto como substantivo.

Resumo do artigo

  • Com prefixos, letras iguais pedem hífen (micro-ondas, inter-regional) e letras diferentes se juntam (autoescola, superinteressante).
  • Prefixo terminado em vogal diante de “r” ou “s” dispensa o hífen e dobra a consoante: antissocial, autorretrato.
  • Pré, pós, pró, ex, vice e recém levam hífen sempre; co e re se juntam sempre; qualquer prefixo diante de “h” leva hífen.
  • Compostos sem conectivo mantêm o hífen (guarda-chuva); com conectivo, em geral perdem (fim de semana), salvo exceções cristalizadas e nomes de plantas e animais.
  • Paraquedas, mandachuva e dia a dia são os exemplos mais lembrados de palavras que perderam o hífen.

Perguntas frequentes

“Bem-vindo” tem hífen?

Sim. “Bem” forma hífen com a maioria das palavras, e “bem-vindo” é a grafia correta. O erro comum é escrever “benvindo”, que não existe no padrão atual.

“Supermercado” e “super-homem” seguem a mesma regra?

Sim, a regra das letras iguais e do “h”. “Super” antes de “m” se junta; antes de “h” recebe hífen, assim como antes de “r”, em “super-resistente”.

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