Acentuação gráfica: as regras que resolvem a maioria dos casos
Acento não é enfeite: ele diz ao leitor onde a voz cai e, muitas vezes, separa palavras diferentes, como “sabia”, “sábia” e “sabiá”. O problema é que a maioria das pessoas aprendeu as regras de uma vez só, na escola, e depois só se lembrou de que “alguma coisa mudou com o Acordo”. Este artigo organiza o assunto em poucas regras que dão conta da imensa maioria das palavras, separa o que mudou do que ficou igual e termina com exercícios para você testar se já decide sem o corretor.
Tudo começa pela sílaba tônica
Antes de qualquer regra, você precisa localizar a sílaba tônica, aquela pronunciada com mais força. Conforme a posição dela, a palavra é oxítona (última sílaba forte: ca-fé, a-ni-mal), paroxítona (penúltima: ca-der-no, fá-cil) ou proparoxítona (antepenúltima: lâm-pa-da, ô-ni-bus). Um truque simples é dizer a palavra como se estivesse chamando alguém de longe: a sílaba que você alonga é a tônica.
A primeira regra é a mais fácil de todas: toda proparoxítona recebe acento, sem exceção. Médico, público, árvore, pêssego, trânsito, gramática, sílaba. Se a força está na antepenúltima sílaba, o acento é obrigatório.
Oxítonas e monossílabos: a lista curta das terminações
As oxítonas recebem acento quando terminam em a, e, o, seguidos ou não de “s”, e em em ou ens. É por isso que escrevemos sofá, você, avô, cipós, armazém, parabéns, também. As terminações que não estão nessa lista ficam sem acento: animal, papel, comer, jardim, urubu, rapaz.
Os monossílabos tônicos seguem a mesma lógica, mas sem a terminação “em”: recebem acento os terminados em a, e, o, com ou sem “s”: pá, pé, pó, já, fé, nós, três, vê, dê. Monossílabos átonos, como o artigo “a”, a preposição “de” e o pronome “se”, nunca levam acento.
Paroxítonas: a regra funciona ao contrário
Como a maior parte das palavras do português é paroxítona, a regra acentua a minoria: paroxítona recebe acento quando termina naquilo que não acentua oxítona. Ficam sem acento as paroxítonas terminadas em a, e, o, em, ens (mesa, parede, livro, jovem, itens). Recebem acento as terminadas em i(s), us, um, uns, l, n, r, x, ps, ã(s), ão(s) e em ditongo.
| Terminação | Exemplos com acento |
|---|---|
| i, is | táxi, júri, lápis, tênis |
| us, um, uns | vírus, bônus, álbum, álbuns |
| l, n, r, x, ps | fácil, hífen, caráter, tórax, bíceps |
| ã, ãs, ão, ãos | órfã, ímãs, órgão, bênçãos |
| ditongo oral (+ s) | história, série, água, jóquei, pônei |
Hiatos e ditongos abertos: onde o Acordo mexeu
O i e o u tônicos que formam hiato com a vogal anterior recebem acento quando estão sozinhos na sílaba ou seguidos apenas de “s”: saída, saúde, baú, país, juízes, faísca, egoísta. Não há acento quando vem “nh” em seguida (rainha, moinho) nem quando a vogal é seguida de outra consoante na mesma sílaba (juiz, ruim, cair).
O Acordo retirou o acento desses hiatos quando, em paroxítonas, eles vêm depois de um ditongo: feiura, baiuca, bocaiuva. Nas oxítonas, o acento continua: Piauí, tuiuiú. Também caíram os acentos dos hiatos oo e ee: voo, enjoo, perdoo, creem, leem, veem, deem.
A mudança mais visível foi nos ditongos abertos “éi” e “ói”. Eles continuam acentuados em oxítonas e monossílabos (papéis, anéis, herói, dói, troféu, chapéu), mas perderam o acento nas paroxítonas: ideia, assembleia, plateia, estreia, heroico, jiboia, paranoia, Coreia.
Trema e acentos diferenciais: o que saiu e o que ficou
O trema desapareceu das palavras portuguesas. Escreve-se linguiça, frequente, tranquilo, cinquenta, aguentar, sem os dois pontinhos sobre o “u”. A pronúncia não mudou; o sinal sobrevive só em nomes próprios estrangeiros e derivados, como Müller.
Os acentos diferenciais foram quase todos eliminados: “para” (verbo e preposição), “pelo”, “polo” e “pera” se escrevem sem acento, e o contexto resolve. Três casos, porém, permanecem obrigatórios: pôde (passado) e pode (presente); pôr (verbo) e por (preposição); têm e vêm (plural) e tem e vem (singular). A regra do plural se estende aos derivados: contêm, mantêm, provêm, intervêm.
Exercícios comentados
Tente responder antes de abrir cada resposta. O comentário explica o raciocínio, que vale mais do que o gabarito.
1Reescreva com a grafia atual: “A platéia aplaudiu a estréia do filme sobre a jibóia.”Ver resposta
Resposta: A plateia aplaudiu a estreia do filme sobre a jiboia.
Comentário: As três palavras são paroxítonas com ditongo aberto “éi” ou “ói”. Depois do Acordo, esse acento só permanece em oxítonas e monossílabos, como “papéis” e “herói”; nas paroxítonas ele foi retirado.
2Reescreva com a grafia atual: “Eles lêem o jornal no vôo e depois vêem as notícias no celular.”Ver resposta
Resposta: Eles leem o jornal no voo e depois veem as notícias no celular.
Comentário: Os hiatos “ee” e “oo” deixaram de receber acento circunflexo, como em “creem”, “deem” e “enjoo”. Já o singular “lê” e “vê” continua acentuado por ser monossílabo tônico terminado em “e”.
3Complete com a forma correta: “As encomendas ___ (tem/têm) atraso porque os motoristas ___ (vem/vêm) de outra cidade; ninguém ___ (pode/pôde) avisar ontem.”Ver resposta
Resposta: têm, vêm, pôde
Comentário: “Encomendas” e “motoristas” são sujeitos no plural, por isso os verbos recebem o acento circunflexo que marca a terceira pessoa do plural. “Ontem” situa a frase no passado, e o pretérito perfeito de “poder” é “pôde”, com acento diferencial mantido.
4Explique por que “saída” e “saúde” levam acento, mas “rainha” e “juiz” não.Ver resposta
Resposta: Em “saída” e “saúde”, o i e o u tônicos formam hiato e estão sozinhos na sílaba. Em “rainha”, o “i” é seguido de “nh”; em “juiz”, o “i” divide a sílaba com o “z”.
Comentário: A regra do hiato tem duas condições: a vogal tônica precisa estar isolada na sílaba (ou com “s”) e não pode ser seguida de “nh”. “Rainha” falha na segunda condição e “juiz” falha na primeira. No plural, “juízes” volta a receber acento, porque o “i” fica sozinho na sílaba.
Resumo do artigo
- Localize a sílaba tônica antes de aplicar qualquer regra; toda proparoxítona recebe acento.
- Oxítonas se acentuam quando terminam em a, e, o, em, ens; paroxítonas, quando terminam em i, us, um, l, n, r, x, ps, ã, ão ou ditongo.
- O i e o u tônicos em hiato recebem acento quando isolados na sílaba e não seguidos de “nh”; depois de ditongo, em paroxítonas, perderam o acento.
- Ditongos abertos éi e ói perderam o acento nas paroxítonas (ideia, heroico), e os hiatos oo e ee também (voo, creem).
- O trema saiu das palavras portuguesas; dos acentos diferenciais, continuam obrigatórios pôde, pôr, têm e vêm.
Perguntas frequentes
“Para” do verbo parar ainda leva acento?
Não. O acento diferencial de “pára” foi eliminado. Escreve-se “o ônibus para no ponto” e “vou para casa” da mesma forma, e o contexto indica o sentido.
“Ele contém” e “eles contêm” têm acentos diferentes?
Sim. No singular, o acento é agudo, porque “contém” é oxítona terminada em “em”. No plural, o acento é circunflexo, seguindo o modelo de “têm”: eles contêm, mantêm, provêm.
