Pronomes relativos: que, o qual, cujo e onde
“O filme que eu assisti”, “a empresa onde trabalho há dois anos”, “a pessoa cuja a opinião eu respeito”: cada uma dessas frases tem um deslize típico de pronome relativo, e todas soam naturais na fala. O relativo é uma peça de encaixe: retoma uma palavra anterior e abre uma nova oração, e a dificuldade está em perceber qual função ele exerce dentro dela. Este artigo explica esse mecanismo e apresenta os usos de “que”, “quem”, “o qual”, “cujo” e “onde”, com os testes que resolvem a dúvida na hora de escrever.
O que um pronome relativo faz na frase
Um pronome relativo retoma um termo anterior, chamado antecedente, e ao mesmo tempo inicia uma oração que o caracteriza. Em “comprei o livro que você indicou”, o “que” retoma “livro” e introduz a oração “que você indicou”. A chave está em uma pergunta: qual é a função do relativo dentro da sua própria oração? Para descobrir, substitua o pronome pelo antecedente: “você indicou o livro”. “O livro” é objeto direto, logo o “que” também é, e não precisa de preposição.
Esse teste resolve a maior parte dos erros. Se, ao refazer a frase, o antecedente aparecer com preposição, essa preposição precisa vir antes do relativo. “Gosto do bairro” vira “o bairro de que gosto”; “moro no bairro” vira “o bairro em que moro”; “fui ao bairro” vira “o bairro a que fui”.
“Que” e “quem”: o universal e o restrito a pessoas
Que é o relativo mais versátil: retoma pessoas e coisas, no singular e no plural, e exerce qualquer função. Essa flexibilidade tem um preço: na fala, ele costuma engolir a preposição que o verbo exige, e o hábito passa para a escrita. É o chamado “que universal”, frequente em redações.
Quem retoma apenas pessoas (ou seres personificados) e, como relativo com antecedente, vem sempre precedido de preposição: “o colega com quem dividi o quarto”, “a médica a quem devo a recuperação”. Sem preposição, “quem” funciona como relativo indefinido, sem antecedente expresso: “Quem avisa amigo é”.
“O qual”: quando a clareza pede variação
O qual (e suas formas “a qual”, “os quais”, “as quais”) equivale a “que”, mas concorda em gênero e número com o antecedente. Por isso é a escolha certa quando há dois substantivos possíveis antes do relativo e o leitor pode se confundir sobre qual deles está sendo retomado.
“O qual” também é preferível depois de preposições com mais de uma sílaba (sobre, durante, mediante, perante) e de locuções prepositivas: “a decisão sobre a qual discutimos”, “o prédio em frente ao qual ficou o carro”. Fora dessas situações, não há vantagem em preferir “o qual”; o “que” é mais leve e igualmente correto.
“Cujo”: posse, concordância e o artigo que não cabe
Cujo indica posse e equivale a “de quem” ou “do qual”. Ele fica entre o possuidor (antecedente) e a coisa possuída (o substantivo seguinte), e concorda em gênero e número com a coisa possuída, nunca com o possuidor: “o autor cuja obra li”, “a loja cujos produtos atrasaram”.
Como qualquer relativo, “cujo” recebe a preposição que o verbo exigir: “a empresa em cujo prédio trabalho”, “o amigo de cuja ajuda precisei”. Em texto corrido, essas construções podem ser trocadas por uma nova frase, se ficarem pesadas.
“Onde” é lugar; tempo e situação pedem “em que”
Onde retoma apenas lugar físico e equivale a “em que” ou “no qual”: “a praça onde brincávamos”. Com verbos de movimento, usa-se aonde: “a cidade aonde vamos”. O erro mais comum é estender “onde” a tempo, situações e objetos: “a época onde”, “a reunião onde”, “o livro onde”. Nesses casos, use “em que” ou “no qual”.
| Antecedente | Relativo adequado | Exemplo |
|---|---|---|
| lugar físico | onde / em que | o bairro onde cresci |
| lugar com movimento | aonde / a que | o mercado aonde fomos |
| tempo | em que / quando | o ano em que me formei |
| situação ou evento | em que / no qual | a reunião em que a ideia surgiu |
| modo | como / pelo qual | a maneira como ele fala |
Exercícios comentados
Tente responder antes de abrir cada resposta. O comentário explica o raciocínio, que vale mais do que o gabarito.
1Corrija a frase: “O concurso que me inscrevi foi adiado.”Ver resposta
Resposta: O concurso em que me inscrevi foi adiado. (Ou: no qual me inscrevi.)
Comentário: Quem se inscreve, inscreve-se em algo. Refazendo a oração, temos “me inscrevi no concurso”, e a preposição “em” precisa acompanhar o relativo.
2Reescreva de acordo com a norma: “A dona do restaurante cujo o filho estuda comigo abriu uma filial.”Ver resposta
Resposta: A dona do restaurante cujo filho estuda comigo abriu uma filial.
Comentário: “Cujo” não admite artigo depois de si, pois já carrega o valor de “do qual”. A concordância, no masculino singular, está correta porque se refere a “filho”, a coisa possuída.
3Substitua “onde” quando necessário: “Lembro do dia onde chegamos à casa onde moram meus avós.”Ver resposta
Resposta: Lembro-me do dia em que chegamos à casa onde moram meus avós.
Comentário: “Dia” indica tempo, por isso pede “em que” (ou “quando”). “Casa” é lugar físico, e “onde” fica adequado. Na norma escrita, “lembrar-se” exige o pronome e a preposição “de”.
4Reescreva para eliminar a ambiguidade: “Falei com o irmão da Carla, que se mudou para Curitiba.” Considere que quem se mudou foi Carla.Ver resposta
Resposta: Falei com o irmão da Carla, a qual se mudou para Curitiba.
Comentário: Com “que”, tanto o irmão quanto Carla poderiam ter se mudado. “A qual”, no feminino, deixa claro que o antecedente é Carla. Se fosse o irmão, “o qual”.
5Complete com o relativo adequado e a preposição, se houver: “A amiga ___ confiei o segredo contou tudo.”Ver resposta
Resposta: a quem (A amiga a quem confiei o segredo contou tudo.)
Comentário: Confia-se algo a alguém. Como o antecedente é pessoa, “quem” é a escolha mais natural, e a preposição “a” vem antes dele. “À qual” também seria correto.
Resumo do artigo
- O relativo retoma um antecedente e exerce uma função na própria oração; descubra essa função refazendo a frase com o antecedente.
- Se a reconstrução mostrar uma preposição, ela deve aparecer antes do relativo: “de que”, “em que”, “a quem”.
- “O qual” concorda com o antecedente e desfaz ambiguidades; também é preferível depois de preposições longas.
- “Cujo” indica posse, concorda com a coisa possuída e nunca é seguido de artigo.
- “Onde” só retoma lugar físico; tempo, situações e objetos pedem “em que” ou “no qual”.
Perguntas frequentes
“A empresa onde trabalho” está certo?
Está, se você pensa na empresa como lugar físico. Se a ideia for a instituição, “a empresa em que trabalho” ou “na qual trabalho” é mais precisa. Os dois usos são aceitos.
Posso escrever “cujo o”?
Não. “Cujo” nunca é seguido de artigo, em nenhuma situação. O correto é “cujo filho”, “cuja casa”, “cujos pais”, sem “o”, “a”, “os” ou “as”.
