Crase: um método para decidir em segundos
A crase assusta mais do que deveria. Não é uma regra solta, e sim o encontro de duas coisas que você já conhece: a preposição “a”, exigida por um verbo ou nome, e o artigo “a”, que acompanha um substantivo feminino. Quando os dois se juntam, nasce o acento grave. Este artigo transforma essa ideia em um método de três perguntas e mostra os casos em que a crase é obrigatória, proibida ou facultativa.
O que a crase realmente é
Crase é a fusão de dois “a”: a preposição pedida por um verbo ou por um nome e o artigo feminino que vem antes do substantivo. Em “fui à padaria”, o verbo “ir” pede a preposição “a” (quem vai, vai a algum lugar) e “padaria” aceita o artigo “a” (a padaria). Dois “a” juntos viram “à”. Se faltar um deles, não há crase.
Isso explica tudo o que vem depois: não há crase antes de palavra masculina (o artigo seria “o”), nem antes de verbo (verbo não aceita artigo), nem quando o verbo não pede preposição (“visitei a padaria”).
O teste da palavra masculina
O método mais rápido é substituir a palavra feminina por uma masculina equivalente. Se, na troca, aparecer “ao”, a crase está confirmada. Se aparecer apenas “a” ou apenas “o”, não há crase.
Para nomes de lugar, use um teste complementar: quem vai a e volta da, usa crase; quem vai a e volta de, não usa. “Vou à Bahia” (volto da Bahia), mas “vou a Brasília” (volto de Brasília). Se o lugar vier especificado, o artigo aparece: “vou à Brasília dos anos sessenta”.
Casos em que a crase é obrigatória
- Antes de substantivo feminino com artigo, quando o termo anterior pede “a”: “cheguei à escola”, “obedeça à sinalização”, “referiu-se à proposta”.
- Nas locuções femininas: adverbiais (“à tarde”, “às vezes”, “à vontade”, “às pressas”), prepositivas (“à procura de”, “à frente de”, “à espera de”) e conjuntivas (“à medida que”, “à proporção que”).
- Na indicação de horas determinadas: “a reunião começa às nove”, “saímos à meia-noite”. Com “para”, “desde” e “após”, não: “ficou aqui desde as nove”.
- Na expressão “à moda de”, mesmo diante de palavra masculina, pois a palavra “moda” fica subentendida: “bife à milanesa”, “poema à Drummond”.
- Antes de “aquele”, “aquela” e “aquilo” quando o termo anterior pede “a”: “refiro-me àquela mensagem”, “cheguei àquele ponto”.
Casos em que a crase é proibida
| Situação | Exemplo correto | Por quê |
|---|---|---|
| antes de palavra masculina | Anda a pé e paga a prazo. | artigo seria “o” |
| antes de verbo | Começou a chover cedo. | verbo não tem artigo |
| antes de pronome pessoal | Entreguei a ela o recado. | pronome dispensa artigo |
| antes de pronome de tratamento | Pedi a Vossa Senhoria um parecer. | exceção: senhora, senhorita, dona |
| “a” singular antes de plural | Vendemos a pessoas de toda a cidade. | não há artigo: seria “às pessoas” |
| antes de artigo indefinido | Fomos a uma festa no sábado. | dois artigos não convivem |
| entre palavras repetidas | Ficaram cara a cara na fila. | não há artigo |
Pronomes merecem atenção especial. Indefinidos (“a alguém”, “a toda pessoa”, “a qualquer hora”) e os demonstrativos “esta” e “essa” (“a esta altura”) não admitem crase. Entre os relativos, “a qual” leva crase quando o verbo pede “a” (“a professora à qual me referi”), mas “que” e “cuja” não levam. Só há crase em “a que” quando equivale a “àquela que”: “esta mesa é igual à que vimos ontem”.
Três palavras recebem crase apenas quando vêm especificadas: casa (no sentido de lar), terra (oposta a mar) e distância. Compare “voltei a casa” com “voltei à casa dos meus pais”, e “ensino a distância” com “assistiu à distância de dois metros”.
Quando você pode escolher
A crase é facultativa em três situações, porque o próprio artigo é facultativo nelas:
- Antes de nome próprio feminino: “dei o recado a Fernanda” ou “à Fernanda”. O artigo diante de nomes de pessoa varia conforme a região e o grau de intimidade.
- Antes de pronome possessivo feminino no singular: “entreguei a minha irmã” ou “à minha irmã”.
- Depois da preposição “até”: “fomos até a esquina” ou “até à esquina”.
Nesses casos, as duas formas estão corretas. O que não se aceita é oscilar dentro do mesmo texto: escolha um critério e aplique-o do início ao fim. Na dúvida, em prova, a forma sem crase nessas três situações nunca estará errada.
Exercícios comentados
Tente responder antes de abrir cada resposta. O comentário explica o raciocínio, que vale mais do que o gabarito.
1Decida se há crase: “Voltamos (a / à) pé porque o ônibus não passou.”Ver resposta
Resposta: a pé (sem crase)
Comentário: “Pé” é substantivo masculino, e o artigo seria “o”. Como não existe “ao pé” nesse sentido, não há encontro de dois “a”. Em locuções com palavra masculina nunca há crase.
2Complete: “O pedido deve ser enviado (a / à) secretaria até (as / às) dezessete horas.”Ver resposta
Resposta: à secretaria; às dezessete horas
Comentário: Troca por masculino: “enviado ao departamento”, logo crase em “à secretaria”. Hora determinada também pede crase: “às dezessete horas”.
3A frase “Fizemos uma homenagem a todas as professoras da escola” está correta? Justifique.Ver resposta
Resposta: Está correta. Não há crase porque o “a” antecede o pronome indefinido “todas”, e não diretamente um artigo.
Comentário: Entre a preposição e o substantivo há o pronome “todas”, e a crase só ocorre quando o “a” se funde com o artigo. Note que “as professoras” mantém seu artigo normalmente, mas ele não se encontra com a preposição.
4Reescreva com a acentuação correta: “Minha tia sempre chega as pressas, a medida que o dia avança, e vai direto aquela padaria da esquina.”Ver resposta
Resposta: Minha tia sempre chega às pressas, à medida que o dia avança, e vai direto àquela padaria da esquina.
Comentário: “Às pressas” e “à medida que” são locuções femininas, que recebem crase. “Vai a” mais o demonstrativo “aquela” resulta em “àquela”, pois o verbo “ir” pede a preposição.
5Em “Entreguei o presente a Joana” e “Entreguei o presente à Joana”, qual está certa?Ver resposta
Resposta: As duas.
Comentário: Antes de nome próprio feminino, o artigo é facultativo, e por consequência a crase também é. O importante é manter o mesmo critério ao longo do texto.
6Corrija se necessário: “Ela se dirigiu à uma funcionária da escola.”Ver resposta
Resposta: Ela se dirigiu a uma funcionária da escola.
Comentário: Diante de artigo indefinido (“uma”) nunca há crase, porque o artigo definido “a” e o indefinido “uma” não ocupam o mesmo lugar. O verbo pede a preposição, mas falta o segundo “a”.
Resumo do artigo
- Crase é a soma da preposição “a” com o artigo feminino “a” ou com o início de “aquele”, “aquela” e “aquilo”.
- Teste da palavra masculina: se a troca resulta em “ao”, há crase; se resulta em “a” ou “o”, não há.
- Crase obrigatória em locuções femininas, horas determinadas, “à moda de” e antes de feminino com artigo quando o termo anterior pede “a”.
- Crase proibida antes de masculino, verbo, pronomes pessoais e indefinidos, artigo indefinido, plural sem artigo e palavras repetidas.
- Crase facultativa antes de nome próprio feminino, possessivo feminino e depois de “até”.
Perguntas frequentes
Existe crase antes de “ela”, “você” e “senhora”?
Antes de “ela” e “você”, não: pronomes pessoais e a maioria dos de tratamento não aceitam artigo. “Senhora”, “senhorita” e “dona” são exceções e admitem crase: “entregue à senhora Rita”.
“Das 8h às 12h” ou “das 8h as 12h”?
“Das 8h às 12h”. Hora determinada pede crase, e a correspondência “das... às” ajuda a lembrar. Com outras preposições não há crase: “para as 12h”, “desde as 8h”.
