Regência verbal: verbos que mudam de sentido com a preposição
Uma preposição parece detalhe, mas ela decide o sentido de muitos verbos. “Assistir o paciente” é cuidar dele; “assistir ao jogo” é vê-lo. “Aspirar o pó” é limpar o chão; “aspirar a uma vaga” é desejá-la. Em textos formais e e-mails profissionais, trocar ou omitir essa preposição passa impressão de descuido, mesmo quando o leitor entende a mensagem. Este artigo apresenta os verbos que mais mudam de regência, explica o que cada construção significa e mostra como não confundir.
O que é regência e por que ela importa
Regência é a relação entre um termo que exige complemento e o complemento que ele pede. Na regência verbal, o verbo determina se o complemento vem ligado diretamente (objeto direto) ou por preposição (objeto indireto): “ela comprou o carro”, mas “ela precisa do carro”. O verbo é quem manda.
Alguns verbos admitem mais de uma regência, e cada uma corresponde a um sentido diferente. Por isso não basta decorar a preposição: é preciso saber o que você quer dizer e, a partir disso, escolher a construção.
Assistir, aspirar e visar: três sentidos, três regências
Assistir com o sentido de ver ou presenciar pede a preposição “a”: “assistir ao filme”, “assistir à reunião”. Com o sentido de ajudar ou prestar atendimento, é transitivo direto: “a enfermeira assistiu o idoso”. Com o sentido de caber ou pertencer, volta a ser indireto: “assiste ao morador o direito de reclamar”.
Aspirar no sentido de inalar ou sugar é transitivo direto: “aspirar o tapete”. No sentido de desejar, pede “a”: “aspirar a um cargo melhor”. Visar segue trilha parecida: no sentido de mirar ou de dar visto, é direto (“visar o alvo”, “visar o cheque”); no sentido de ter como objetivo, pede “a” (“a campanha visa à redução do lixo”). Antes de infinitivo, a preposição costuma cair: “a medida visa reduzir custos”.
Implicar, preferir e custar: os que mais aparecem em redação
Implicar no sentido de acarretar, ter como consequência, é transitivo direto: “a greve implicou atrasos nas entregas”. A forma “implicar em”, muito comum na fala, não é aceita pela norma-padrão nesse sentido. Com a preposição “com”, o verbo significa provocar, ter implicância: “o irmão mais velho vive implicando com ela”.
Preferir é transitivo direto e indireto: prefere-se uma coisa a outra. A construção “preferir mais isso do que aquilo” é comum na conversa, mas a escrita formal dispensa o “mais” e o “do que”, porque a comparação já está no verbo. Custar, no sentido de ser difícil, tem como sujeito a coisa que custa: “custou-me aceitar a mudança”. A forma “eu custei a aceitar” é típica da fala.
Chegar, ir, obedecer, namorar, esquecer e lembrar
Na norma-padrão, chegar e ir indicam destino com a preposição “a”: “cheguei ao trabalho”, “vou à feira”. A preposição “em” domina a fala brasileira, mas é evitada em textos formais. Já “ir para” é aceito quando a ideia é de permanência: “ela foi para Belém e ficou por lá”.
Obedecer e desobedecer pedem “a”: “obedecer ao regulamento”, “desobedecer aos sinais”. Namorar é transitivo direto: namora-se alguém, não “com” alguém; “namorar com” é construção da fala, a evitar na escrita formal.
Esquecer e lembrar têm duas construções. Sem pronome, são transitivos diretos: “esqueci o guarda-chuva”, “lembrei o aniversário”. Com pronome (esquecer-se, lembrar-se), passam a exigir “de”: “esqueci-me do guarda-chuva”. O erro está em misturar: “esqueci do guarda-chuva” não segue nenhuma das duas. Há ainda a construção “lembrar algo a alguém”: “lembrei ao porteiro a troca da lâmpada”.
Regência nominal: o básico que resolve muita coisa
Substantivos, adjetivos e advérbios também pedem preposições específicas. É a regência nominal, que em geral acompanha a do verbo da mesma família: quem obedece a algo é obediente a algo. Nem sempre a correspondência é perfeita (prefere-se algo a outro, mas tem-se preferência por algo), por isso alguns casos merecem registro:
- acessível a, favorável a, contrário a, semelhante a, referente a;
- ansioso por (ou para), apto a (ou para), capaz de, compatível com;
- preferência por, respeito a (ou por), dúvida sobre, satisfeito com.
Exercícios comentados
Tente responder antes de abrir cada resposta. O comentário explica o raciocínio, que vale mais do que o gabarito.
1Complete com a preposição adequada, se houver: “Ontem assisti ___ final do campeonato de futsal na quadra da escola.”Ver resposta
Resposta: à (assisti à final)
Comentário: “Assistir” no sentido de ver é transitivo indireto e pede “a”. Como “final” é substantivo feminino com artigo, a preposição se funde com o artigo e surge a crase.
2A frase “O atraso do ônibus implicou em perda do horário da consulta” está de acordo com a norma-padrão?Ver resposta
Resposta: Não. O correto é “O atraso do ônibus implicou perda do horário da consulta”.
Comentário: No sentido de acarretar, “implicar” é transitivo direto e não admite a preposição “em”, por mais frequente que ela seja na fala.
3Reescreva de acordo com a norma-padrão: “Minha avó prefere mais o pão da padaria da esquina do que o do mercado.”Ver resposta
Resposta: Minha avó prefere o pão da padaria da esquina ao do mercado.
Comentário: “Preferir” já traz a ideia de comparação, por isso dispensa “mais” e “do que”. O segundo termo vem introduzido por “a”, que se junta ao artigo “o”: “ao do mercado”.
4Qual das frases segue a regência formal? (a) “Esqueci do caderno em casa.” (b) “Esqueci o caderno em casa.” (c) “Esqueci-me do caderno em casa.”Ver resposta
Resposta: As frases (b) e (c). A frase (a) está em desacordo com a norma.
Comentário: Sem o pronome, “esquecer” é transitivo direto (b). Com o pronome “se”, exige a preposição “de” (c). A construção (a) mistura as duas e não é aceita na escrita formal.
5Corrija a regência: “O síndico lembrou aos moradores que eles devem obedecer o regimento e que a biblioteca é acessível para todos.”Ver resposta
Resposta: O síndico lembrou aos moradores que eles devem obedecer ao regimento e que a biblioteca é acessível a todos.
Comentário: “Lembrar algo a alguém” já estava correto. “Obedecer” pede “a” (ao regimento), e o adjetivo “acessível” também rege “a” (acessível a todos).
Resumo do artigo
- A regência depende do sentido pretendido: o mesmo verbo pode exigir preposições diferentes.
- Assistir (ver), aspirar (desejar) e visar (ter como objetivo) pedem “a”; nos outros sentidos, são transitivos diretos.
- Implicar (acarretar) e namorar não levam preposição; preferir compara com “a”, sem “mais” nem “do que”.
- Esquecer e lembrar são diretos sem pronome e pedem “de” quando pronominais; chegar e ir indicam destino com “a”.
- A regência nominal costuma acompanhar a do verbo correspondente: acessível a, favorável a, preferência por, capaz de.
Perguntas frequentes
“Chegar em casa” está errado?
Na escrita formal, prefira “chegar a casa”; a norma-padrão indica destino com “a”: “cheguei ao trabalho”, “chegamos à praia”. A forma com “em” fica para contextos informais.
Posso usar “assisti-lhe” para dizer que vi um filme?
Não. No sentido de ver, “assistir” não aceita o pronome “lhe”. Use “assisti a ele” ou repita o substantivo. “Assisti-lhe” só funciona no sentido de ajudar ou de caber.
