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Gramática aplicada

Regência verbal: verbos que mudam de sentido com a preposição

Leitura de 7 min•5 exercícios comentados•

Uma preposição parece detalhe, mas ela decide o sentido de muitos verbos. “Assistir o paciente” é cuidar dele; “assistir ao jogo” é vê-lo. “Aspirar o pó” é limpar o chão; “aspirar a uma vaga” é desejá-la. Em textos formais e e-mails profissionais, trocar ou omitir essa preposição passa impressão de descuido, mesmo quando o leitor entende a mensagem. Este artigo apresenta os verbos que mais mudam de regência, explica o que cada construção significa e mostra como não confundir.

O que é regência e por que ela importa

Regência é a relação entre um termo que exige complemento e o complemento que ele pede. Na regência verbal, o verbo determina se o complemento vem ligado diretamente (objeto direto) ou por preposição (objeto indireto): “ela comprou o carro”, mas “ela precisa do carro”. O verbo é quem manda.

Alguns verbos admitem mais de uma regência, e cada uma corresponde a um sentido diferente. Por isso não basta decorar a preposição: é preciso saber o que você quer dizer e, a partir disso, escolher a construção.

Assistir, aspirar e visar: três sentidos, três regências

Assistir com o sentido de ver ou presenciar pede a preposição “a”: “assistir ao filme”, “assistir à reunião”. Com o sentido de ajudar ou prestar atendimento, é transitivo direto: “a enfermeira assistiu o idoso”. Com o sentido de caber ou pertencer, volta a ser indireto: “assiste ao morador o direito de reclamar”.

Evite
Assistimos o show da banda do bairro e depois assistimos à vizinha que passou mal.
Prefira
Assistimos ao show da banda do bairro e depois assistimos a vizinha que passou mal.
Por quê: Ver o show exige “a” (assistimos ao show). Socorrer a vizinha é transitivo direto, sem preposição, por isso não há crase.

Aspirar no sentido de inalar ou sugar é transitivo direto: “aspirar o tapete”. No sentido de desejar, pede “a”: “aspirar a um cargo melhor”. Visar segue trilha parecida: no sentido de mirar ou de dar visto, é direto (“visar o alvo”, “visar o cheque”); no sentido de ter como objetivo, pede “a” (“a campanha visa à redução do lixo”). Antes de infinitivo, a preposição costuma cair: “a medida visa reduzir custos”.

Exemplo
O estágio visa à formação prática dos alunos, que aspiram a uma vaga efetiva.
Por quê: Os dois verbos estão no sentido de objetivo ou desejo, por isso pedem “a”. Como “formação” é feminino e vem com artigo, ocorre crase.

Implicar, preferir e custar: os que mais aparecem em redação

Implicar no sentido de acarretar, ter como consequência, é transitivo direto: “a greve implicou atrasos nas entregas”. A forma “implicar em”, muito comum na fala, não é aceita pela norma-padrão nesse sentido. Com a preposição “com”, o verbo significa provocar, ter implicância: “o irmão mais velho vive implicando com ela”.

Evite
A reforma do contrato implicará em custos extras para os moradores.
Prefira
A reforma do contrato implicará custos extras para os moradores.
Por quê: No sentido de acarretar, o complemento vem sem preposição. Teste: “implicará o quê?” Custos extras. Objeto direto.

Preferir é transitivo direto e indireto: prefere-se uma coisa a outra. A construção “preferir mais isso do que aquilo” é comum na conversa, mas a escrita formal dispensa o “mais” e o “do que”, porque a comparação já está no verbo. Custar, no sentido de ser difícil, tem como sujeito a coisa que custa: “custou-me aceitar a mudança”. A forma “eu custei a aceitar” é típica da fala.

Evite
Prefiro mais ir de bicicleta do que pegar o ônibus lotado.
Prefira
Prefiro ir de bicicleta a pegar o ônibus lotado.
Por quê: A comparação de preferência se faz com a preposição “a”, sem reforço de “mais”. Diante de verbo no infinitivo, a preposição fica sem crase, pois não há artigo.

Chegar, ir, obedecer, namorar, esquecer e lembrar

Na norma-padrão, chegar e ir indicam destino com a preposição “a”: “cheguei ao trabalho”, “vou à feira”. A preposição “em” domina a fala brasileira, mas é evitada em textos formais. Já “ir para” é aceito quando a ideia é de permanência: “ela foi para Belém e ficou por lá”.

Obedecer e desobedecer pedem “a”: “obedecer ao regulamento”, “desobedecer aos sinais”. Namorar é transitivo direto: namora-se alguém, não “com” alguém; “namorar com” é construção da fala, a evitar na escrita formal.

Esquecer e lembrar têm duas construções. Sem pronome, são transitivos diretos: “esqueci o guarda-chuva”, “lembrei o aniversário”. Com pronome (esquecer-se, lembrar-se), passam a exigir “de”: “esqueci-me do guarda-chuva”. O erro está em misturar: “esqueci do guarda-chuva” não segue nenhuma das duas. Há ainda a construção “lembrar algo a alguém”: “lembrei ao porteiro a troca da lâmpada”.

Regência nominal: o básico que resolve muita coisa

Substantivos, adjetivos e advérbios também pedem preposições específicas. É a regência nominal, que em geral acompanha a do verbo da mesma família: quem obedece a algo é obediente a algo. Nem sempre a correspondência é perfeita (prefere-se algo a outro, mas tem-se preferência por algo), por isso alguns casos merecem registro:

  • acessível a, favorável a, contrário a, semelhante a, referente a;
  • ansioso por (ou para), apto a (ou para), capaz de, compatível com;
  • preferência por, respeito a (ou por), dúvida sobre, satisfeito com.
Evite
O novo prédio não é acessível para cadeirantes, e a proposta é contrária os interesses dos moradores.
Prefira
O novo prédio não é acessível a cadeirantes, e a proposta é contrária aos interesses dos moradores.
Por quê: “Acessível” e “contrário” pedem a preposição “a”. No segundo caso, “a” + “os” forma “aos”.

Exercícios comentados

Tente responder antes de abrir cada resposta. O comentário explica o raciocínio, que vale mais do que o gabarito.

1Complete com a preposição adequada, se houver: “Ontem assisti ___ final do campeonato de futsal na quadra da escola.”Ver resposta

Resposta: à (assisti à final)

Comentário: “Assistir” no sentido de ver é transitivo indireto e pede “a”. Como “final” é substantivo feminino com artigo, a preposição se funde com o artigo e surge a crase.

2A frase “O atraso do ônibus implicou em perda do horário da consulta” está de acordo com a norma-padrão?Ver resposta

Resposta: Não. O correto é “O atraso do ônibus implicou perda do horário da consulta”.

Comentário: No sentido de acarretar, “implicar” é transitivo direto e não admite a preposição “em”, por mais frequente que ela seja na fala.

3Reescreva de acordo com a norma-padrão: “Minha avó prefere mais o pão da padaria da esquina do que o do mercado.”Ver resposta

Resposta: Minha avó prefere o pão da padaria da esquina ao do mercado.

Comentário: “Preferir” já traz a ideia de comparação, por isso dispensa “mais” e “do que”. O segundo termo vem introduzido por “a”, que se junta ao artigo “o”: “ao do mercado”.

4Qual das frases segue a regência formal? (a) “Esqueci do caderno em casa.” (b) “Esqueci o caderno em casa.” (c) “Esqueci-me do caderno em casa.”Ver resposta

Resposta: As frases (b) e (c). A frase (a) está em desacordo com a norma.

Comentário: Sem o pronome, “esquecer” é transitivo direto (b). Com o pronome “se”, exige a preposição “de” (c). A construção (a) mistura as duas e não é aceita na escrita formal.

5Corrija a regência: “O síndico lembrou aos moradores que eles devem obedecer o regimento e que a biblioteca é acessível para todos.”Ver resposta

Resposta: O síndico lembrou aos moradores que eles devem obedecer ao regimento e que a biblioteca é acessível a todos.

Comentário: “Lembrar algo a alguém” já estava correto. “Obedecer” pede “a” (ao regimento), e o adjetivo “acessível” também rege “a” (acessível a todos).

Resumo do artigo

  • A regência depende do sentido pretendido: o mesmo verbo pode exigir preposições diferentes.
  • Assistir (ver), aspirar (desejar) e visar (ter como objetivo) pedem “a”; nos outros sentidos, são transitivos diretos.
  • Implicar (acarretar) e namorar não levam preposição; preferir compara com “a”, sem “mais” nem “do que”.
  • Esquecer e lembrar são diretos sem pronome e pedem “de” quando pronominais; chegar e ir indicam destino com “a”.
  • A regência nominal costuma acompanhar a do verbo correspondente: acessível a, favorável a, preferência por, capaz de.

Perguntas frequentes

“Chegar em casa” está errado?

Na escrita formal, prefira “chegar a casa”; a norma-padrão indica destino com “a”: “cheguei ao trabalho”, “chegamos à praia”. A forma com “em” fica para contextos informais.

Posso usar “assisti-lhe” para dizer que vi um filme?

Não. No sentido de ver, “assistir” não aceita o pronome “lhe”. Use “assisti a ele” ou repita o substantivo. “Assisti-lhe” só funciona no sentido de ajudar ou de caber.

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