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Organização de ideias

Conectivos e coesão: como costurar as frases

Leitura de 7 min•4 exercícios comentados•

Há textos em que todas as frases estão certas e, mesmo assim, a leitura tropeça: cada período parece começar do zero, o mesmo nome se repete cinco vezes e o leitor nunca sabe se a frase seguinte confirma ou contraria a anterior. O que falta é coesão, o conjunto de recursos que amarra uma frase à outra. Neste artigo, o site Redação Popular separa os dois tipos de costura, apresenta uma tabela de conectivos por sentido e mostra quando a costura excessiva estraga o tecido.

Dois tipos de costura: retomar e encadear

A coesão funciona em duas direções. A coesão referencial garante que o leitor saiba de quem ou de que se fala, mesmo quando o nome não é repetido: é o trabalho dos pronomes, dos sinônimos e das omissões calculadas. A coesão sequencial indica como uma ideia se liga à anterior, se soma, se opõe, se explica ou se conclui, e esse é o papel dos conectivos.

Sem a referencial, o texto vira uma lista de nomes repetidos; sem a sequencial, uma pilha de afirmações cuja relação o leitor tem de adivinhar.

Coesão referencial: pronomes, sinônimos e elipse

Os pronomes são o recurso mais econômico de retomada: “a síndica” vira “ela”, “o abaixo-assinado” vira “esse documento” ou simplesmente “o”. O cuidado é garantir que o pronome tenha um único candidato a referente; se há duas mulheres na frase anterior, “ela” gera ambiguidade.

Os sinônimos e expressões equivalentes evitam a repetição sem perder a clareza: “a prefeitura” pode reaparecer como “o município” ou “o poder público local”. Já a elipse é a omissão de um termo que o contexto recupera sozinho: em “Marina chegou cedo e pegou o melhor lugar”, o sujeito da segunda oração não precisa ser repetido.

Evite
O motorista do ônibus parou fora do ponto. O motorista do ônibus disse que o ponto estava ocupado. Os passageiros reclamaram com o motorista do ônibus.
Prefira
O motorista do ônibus parou fora do ponto. Segundo ele, o local estava ocupado, mas os passageiros não aceitaram a explicação e reclamaram.
Por quê: A versão fraca repete “motorista do ônibus” três vezes e “ponto” duas. A reescrita usa pronome (“ele”), sinônimo (“local”) e elipse (os passageiros reclamaram, sem repetir com quem), além de um conectivo de oposição (“mas”).

Coesão sequencial: conectivos organizados por sentido

Conectivo é toda palavra ou expressão que explicita a relação entre duas ideias. O erro mais frequente não é a falta deles, e sim o uso de um conectivo que sinaliza uma relação diferente da real: “portanto” onde não há conclusão, “embora” onde não há concessão. A tabela agrupa os mais úteis pelo sentido.

RelaçãoConectivosExemplo
Adiçãoalém disso, também, ainda, não só... mas tambémA quadra foi reformada; além disso, ganhou iluminação noturna.
Oposiçãomas, porém, contudo, no entanto, entretantoO curso é gratuito; no entanto, as vagas acabam no primeiro dia.
Concessãoembora, ainda que, apesar de, mesmo queEmbora chovesse, a feira abriu no horário.
Causaporque, já que, uma vez que, visto queA reunião foi adiada porque faltou quórum.
Consequênciapor isso, de modo que, tanto que, assimO prazo era curto, por isso a equipe dividiu as tarefas.
Conclusãoportanto, logo, assim sendo, em sumaNinguém se candidatou; portanto, a vaga segue aberta.
Explicaçãoou seja, isto é, em outras palavrasO contrato é intermitente, ou seja, paga só pelas horas trabalhadas.
Tempo e ordemprimeiro, depois, em seguida, enquanto, por fimPrimeiro se lê o edital; depois se separa a documentação.
Evite
O aplicativo de transporte ficou mais caro. Portanto, muita gente voltou a usar o ônibus. Entretanto, as tarifas de ônibus também subiram.
Prefira
O aplicativo de transporte ficou mais caro, e muita gente voltou ao ônibus, mesmo com as tarifas dele também em alta.
Por quê: “Portanto” indica conclusão lógica, mas a relação ali é de consequência prática; “entretanto” abre uma oposição que o texto não desenvolve. A reescrita usa adição simples e transforma a oposição em concessão (“mesmo com”).

Quando a costura aparece demais

Existe uma crença de que texto bem escrito é texto cheio de “outrossim”, “destarte” e “nesse viés”. O efeito costuma ser o oposto: o leitor percebe que os conectivos estão ali para parecer formais, não para ligar ideias.

  • Conectivo decorativo: começa toda frase com “ademais”, “assim”, “dessa forma”, sem que haja adição ou consequência real.
  • Conectivo dobrado: “mas, porém” ou “portanto, assim sendo” na mesma frase, dizendo duas vezes a mesma coisa.
  • Conectivo em vez de ideia: o texto encadeia “primeiramente”, “em segundo lugar”, “por fim” sem que os itens tenham conteúdo que justifique a ordem.
Evite
Primeiramente, a leitura é importante. Ademais, ela amplia o vocabulário. Outrossim, melhora a escrita. Dessa forma, portanto, todos deveriam ler mais.
Prefira
A leitura amplia o vocabulário e, com ele, a capacidade de escrever com precisão. Quem lê com frequência reconhece construções que nunca estudou formalmente e passa a usá-las sem esforço.
Por quê: A versão fraca tem quatro conectivos em quatro frases e nenhuma ideia desenvolvida. A reescrita quase não usa conectivos, porque a relação entre as frases já está clara pelo conteúdo.

Exercícios comentados

Tente responder antes de abrir cada resposta. O comentário explica o raciocínio, que vale mais do que o gabarito.

1Aponte a ambiguidade e reescreva: “A professora conversou com a coordenadora sobre a aluna. Ela ficou preocupada com a situação.”Ver resposta

Resposta: “Ela” pode ser a professora, a coordenadora ou a aluna. Exemplo de reescrita: “A professora conversou com a coordenadora sobre a aluna, e a coordenadora ficou preocupada com a situação.”

Comentário: Quando há mais de um referente possível do mesmo gênero e número, o pronome deixa de economizar e passa a confundir. Nesses casos, repetir o nome ou usar uma expressão como “a gestora” é a solução correta.

2Escolha o conectivo adequado: “O condomínio aprovou a reforma da fachada; ____ as obras só começam depois que o orçamento for fechado.”Ver resposta

Resposta: Um conectivo de oposição ou ressalva: “no entanto”, “porém” ou “contudo”.

Comentário: A segunda oração restringe a primeira: a aprovação existe, mas a execução depende de outra etapa. “Portanto” ou “por isso” estariam errados, porque a obra não começa depois como consequência da aprovação, e sim apesar dela.

3Reduza o excesso de conectivos sem perder a relação entre as ideias: “Primeiramente, acordei tarde. Ademais, perdi o ônibus. Consequentemente, portanto, cheguei atrasado.”Ver resposta

Resposta: Exemplo: “Acordei tarde, perdi o ônibus e cheguei atrasado.” Ou: “Como acordei tarde, perdi o ônibus e cheguei atrasado.”

Comentário: A sequência de causa e efeito já está clara pela ordem dos fatos; os conectivos só acrescentavam peso. “Consequentemente, portanto” é um conectivo dobrado. Um único “como” basta para marcar a causa, se você quiser explicitá-la.

4Identifique os recursos de coesão referencial: “O bairro ganhou um novo posto de saúde. A unidade atende de segunda a sábado e já reduziu as filas do hospital. Moradores dizem que ela chegou tarde, mas chegou.”Ver resposta

Resposta: “A unidade” é um sinônimo que retoma “posto de saúde”; “ela” é pronome que retoma “a unidade”; em “mas chegou”, há elipse do sujeito “ela”.

Comentário: O trecho retoma o mesmo referente três vezes sem repetir “posto de saúde”. É um bom modelo: o nome aparece uma vez, o sinônimo vem em seguida e o pronome fecha, quando já não há dúvida sobre quem é o assunto.

Resumo do artigo

  • Coesão referencial retoma termos por pronome, sinônimo e elipse; coesão sequencial encadeia ideias por conectivos.
  • O conectivo precisa expressar a relação real entre as ideias; “portanto” sem conclusão é erro, não enfeite.
  • Excesso de conectivos denuncia falta de conteúdo: se a relação já está clara, a palavra de ligação é dispensável.
  • Pronomes só funcionam quando há um único referente possível; na dúvida, repita o nome.

Perguntas frequentes

Posso começar frase com “mas”?

Pode. Não há regra que proíba, e o uso é comum em textos bem escritos. O que se deve evitar é começar várias frases seguidas com o mesmo conectivo.

Repetir uma palavra é sempre erro de coesão?

Não. Repetir termos técnicos ou nomes que evitam ambiguidade é correto. O problema é a repetição desnecessária, quando um pronome ou sinônimo resolveria sem perda de clareza.

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