Como concluir um texto sem repetir tudo
Muita gente chega ao último parágrafo com o tempo acabando e a sensação de que já disse tudo. A saída mais comum é copiar a introdução com outras palavras, começar com “concluindo” e encerrar. O leitor percebe e sai com a impressão de que o texto não chegou a lugar algum. A conclusão, porém, tem funções próprias, e cumpri-las não exige mais espaço, exige outra atitude. Este artigo mostra o que o fecho precisa fazer, três formas de construí-lo e os erros que o derrubam.
O que a conclusão deve fazer (e o que não precisa)
A conclusão tem duas tarefas: fechar o raciocínio, mostrando que os argumentos levaram a algum lugar, e deixar algo com o leitor, uma consequência, um alerta, uma proposta. Ela não precisa resumir cada parágrafo nem apresentar prova nova.
O teste mais simples é imaginar o leitor fechando o texto: se ele conseguir dizer “a posição do autor é X, e isso implica Y”, a conclusão funcionou. Se só lembrar que o texto “falou sobre” o tema, o fecho se perdeu.
Retomar a tese sem copiar a introdução
Retomar é diferente de repetir. Na introdução, a tese era uma promessa; na conclusão, ela é um resultado. Por isso, a retomada deve incorporar o que o desenvolvimento acrescentou: a causa que foi explicada, o exemplo que foi analisado, a objeção que foi respondida.
Três formas de fechar: síntese, projeção e proposta
| Forma | O que faz | Quando usar |
|---|---|---|
| Síntese | Condensa os argumentos em uma afirmação mais forte do que cada um isolado | Textos expositivos, resenhas, relatórios |
| Projeção | Aponta o que tende a acontecer se o quadro se mantiver ou mudar | Artigos de opinião, crônicas reflexivas |
| Proposta | Indica quem deve fazer o quê para resolver o problema discutido | Dissertação do ENEM, cartas argumentativas, textos de reivindicação |
A síntese não é lista: em vez de “vimos que A, B e C”, ela formula o que A, B e C significam juntos. A projeção precisa ser plausível e decorrer dos argumentos; projeção catastrófica sem base é generalização apressada. A proposta deve ter agente, ação e finalidade, não “o governo precisa agir”.
Os erros que derrubam o último parágrafo
- Ideia nova: apresentar na conclusão um argumento que não foi desenvolvido. Ele fica órfão, e o leitor se pergunta por que não entrou antes.
- “Concluindo”, “em suma” no início: não são proibidos, mas denunciam que o parágrafo só existe para cumprir tabela. Se o fecho retoma a tese de verdade, o aviso é dispensável.
- Final abrupto: o texto para no último argumento, sem fecho. Em redações avaliadas, costuma ser lido como texto incompleto.
- Apelo vazio: “cabe a cada um fazer sua parte”, “é preciso conscientizar a população”. Servem para qualquer tema e, por isso, para nenhum.
- Pergunta retórica final: “e você, o que vai fazer?”. Pode funcionar em crônica; em dissertação, soa como fuga de posicionamento.
Tamanho e última frase
A conclusão costuma ser o parágrafo mais curto do texto: em uma redação de trinta linhas, quatro ou cinco bastam. O que importa é a última frase, a que fica na memória. Prefira uma afirmação direta e concreta a uma frase longa cheia de orações subordinadas.
Se o tempo estiver acabando, escreva primeiro a última frase e depois preencha o que vem antes dela.
Exercícios comentados
Tente responder antes de abrir cada resposta. O comentário explica o raciocínio, que vale mais do que o gabarito.
1Aponte o erro: “Concluindo, a leitura é importante. Além disso, as bibliotecas públicas deveriam ter horários mais amplos, porque muita gente trabalha de dia.”Ver resposta
Resposta: Ideia nova na conclusão: o argumento sobre os horários das bibliotecas aparece pela primeira vez no fecho, sem ter sido desenvolvido.
Comentário: Se a ideia dos horários é boa, ela merece um parágrafo de desenvolvimento. Na conclusão, fica sem sustentação e desvia a atenção da tese. Além disso, “concluindo” só avisa o óbvio.
2Reescreva a conclusão evitando copiar a tese: Introdução: “O ensino a distância amplia o acesso à universidade.” Conclusão atual: “Portanto, o ensino a distância amplia o acesso à universidade.”Ver resposta
Resposta: Exemplo: “Para quem mora longe dos campi ou trabalha em horário comercial, a aula gravada não é uma versão piorada da presencial: é a única que existe. Ampliar o acesso, nesse caso, significa reconhecer que o aluno típico já não é o que pode se mudar para estudar.”
Comentário: A reescrita mantém a tese, mas a reformula com o que o desenvolvimento teria mostrado: o perfil do aluno que depende da modalidade. “Única que existe” é mais forte do que “amplia o acesso”.
3Classifique o fecho como síntese, projeção ou proposta: “Se nada mudar, em poucos anos a feira do bairro será lembrada como as mercearias de esquina: algo de que todos gostavam e ninguém frequentava.”Ver resposta
Resposta: Projeção: o fecho aponta o que tende a acontecer se o quadro atual se mantiver.
Comentário: A projeção funciona porque é plausível e se apoia numa comparação concreta (as mercearias). Não é catastrófica nem genérica; decorre do argumento de que a feira perde público.
4Transforme o apelo vazio em proposta específica: “É preciso conscientizar a população sobre o descarte correto do lixo eletrônico.”Ver resposta
Resposta: Exemplo: “As prefeituras, em parceria com as lojas que vendem eletrônicos, podem instalar pontos de coleta nos próprios estabelecimentos, com cartazes que informem o que pode ser deixado ali, de modo que o descarte correto seja tão fácil quanto a compra.”
Comentário: A proposta ganha agente (prefeituras e lojas), ação (pontos de coleta), meio (cartazes) e finalidade (facilitar o descarte). “Conscientizar a população” não diz quem faz nem como.
Resumo do artigo
- A conclusão fecha o raciocínio e deixa algo com o leitor; não precisa resumir cada parágrafo.
- Retomar a tese é reafirmá-la com o que o desenvolvimento acrescentou, não copiá-la.
- Síntese, projeção e proposta são as três formas de fecho.
- Ideia nova, apelo vazio, final abrupto e pergunta retórica são os erros mais comuns do último parágrafo.
Perguntas frequentes
É errado começar a conclusão com “portanto”?
Não é errado, mas é desnecessário quando o parágrafo retoma a tese com clareza. Se usar, integre-o à frase em vez de deixá-lo isolado.
A conclusão pode ter só duas linhas?
Pode, desde que retome a posição e feche o raciocínio. Uma conclusão curta e completa vale mais do que uma longa que só repete.
