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Organização de ideias

Como concluir um texto sem repetir tudo

Leitura de 7 min•4 exercícios comentados•

Muita gente chega ao último parágrafo com o tempo acabando e a sensação de que já disse tudo. A saída mais comum é copiar a introdução com outras palavras, começar com “concluindo” e encerrar. O leitor percebe e sai com a impressão de que o texto não chegou a lugar algum. A conclusão, porém, tem funções próprias, e cumpri-las não exige mais espaço, exige outra atitude. Este artigo mostra o que o fecho precisa fazer, três formas de construí-lo e os erros que o derrubam.

O que a conclusão deve fazer (e o que não precisa)

A conclusão tem duas tarefas: fechar o raciocínio, mostrando que os argumentos levaram a algum lugar, e deixar algo com o leitor, uma consequência, um alerta, uma proposta. Ela não precisa resumir cada parágrafo nem apresentar prova nova.

O teste mais simples é imaginar o leitor fechando o texto: se ele conseguir dizer “a posição do autor é X, e isso implica Y”, a conclusão funcionou. Se só lembrar que o texto “falou sobre” o tema, o fecho se perdeu.

Retomar a tese sem copiar a introdução

Retomar é diferente de repetir. Na introdução, a tese era uma promessa; na conclusão, ela é um resultado. Por isso, a retomada deve incorporar o que o desenvolvimento acrescentou: a causa que foi explicada, o exemplo que foi analisado, a objeção que foi respondida.

Evite
Introdução: “A falta de ciclovias desestimula o uso da bicicleta nas cidades.” Conclusão: “Portanto, conclui-se que a falta de ciclovias desestimula o uso da bicicleta nas cidades.”
Prefira
Conclusão: “Se a bicicleta segue sendo exceção nas cidades, não é por falta de interesse: é porque pedalar entre ônibus e caminhões, sem faixa própria, exige uma coragem que não se pode cobrar de ninguém. A ciclovia, mais do que incentivo, é condição mínima.”
Por quê: A versão fraca repete a tese palavra por palavra. A reescrita afirma a mesma posição, mas carregada do que o texto mostrou: o problema é de segurança, e a ciclovia deixa de ser “estímulo” para virar “condição”.

Três formas de fechar: síntese, projeção e proposta

FormaO que fazQuando usar
SínteseCondensa os argumentos em uma afirmação mais forte do que cada um isoladoTextos expositivos, resenhas, relatórios
ProjeçãoAponta o que tende a acontecer se o quadro se mantiver ou mudarArtigos de opinião, crônicas reflexivas
PropostaIndica quem deve fazer o quê para resolver o problema discutidoDissertação do ENEM, cartas argumentativas, textos de reivindicação

A síntese não é lista: em vez de “vimos que A, B e C”, ela formula o que A, B e C significam juntos. A projeção precisa ser plausível e decorrer dos argumentos; projeção catastrófica sem base é generalização apressada. A proposta deve ter agente, ação e finalidade, não “o governo precisa agir”.

Evite
Em suma, vimos que o desperdício de comida acontece nas casas, nos restaurantes e nos mercados. Concluindo, é um problema que precisa ser resolvido por todos.
Prefira
Casas, restaurantes e mercados desperdiçam por motivos diferentes, mas por uma mesma razão de fundo: a comida que sobra não tem destino previsto. Enquanto doar exigir mais burocracia do que jogar fora, o lixo continuará sendo o caminho mais fácil.
Por quê: A versão fraca lista o que foi dito e encerra com um apelo vago. A reescrita sintetiza (uma razão de fundo para três cenários) e projeta uma consequência que decorre do argumento.

Os erros que derrubam o último parágrafo

  • Ideia nova: apresentar na conclusão um argumento que não foi desenvolvido. Ele fica órfão, e o leitor se pergunta por que não entrou antes.
  • “Concluindo”, “em suma” no início: não são proibidos, mas denunciam que o parágrafo só existe para cumprir tabela. Se o fecho retoma a tese de verdade, o aviso é dispensável.
  • Final abrupto: o texto para no último argumento, sem fecho. Em redações avaliadas, costuma ser lido como texto incompleto.
  • Apelo vazio: “cabe a cada um fazer sua parte”, “é preciso conscientizar a população”. Servem para qualquer tema e, por isso, para nenhum.
  • Pergunta retórica final: “e você, o que vai fazer?”. Pode funcionar em crônica; em dissertação, soa como fuga de posicionamento.
Evite
Por fim, o trânsito das cidades precisa melhorar. Além disso, a poluição do ar também é um problema grave que afeta a saúde das pessoas. E você, já pensou nisso?
Prefira
Enquanto a cidade continuar medindo sucesso pelo número de carros que consegue mover, e não pelo número de pessoas que consegue levar, cada viaduto novo trará mais congestionamento, não menos. A pergunta que a prefeitura precisa responder não é onde cabe mais uma faixa, mas quem cabe no ônibus.
Por quê: A versão fraca abre com “por fim”, introduz tema novo (poluição) e termina com pergunta vazia. A reescrita retoma o eixo do texto (carros versus pessoas), projeta uma consequência e fecha com uma frase que o leitor leva consigo.

Tamanho e última frase

A conclusão costuma ser o parágrafo mais curto do texto: em uma redação de trinta linhas, quatro ou cinco bastam. O que importa é a última frase, a que fica na memória. Prefira uma afirmação direta e concreta a uma frase longa cheia de orações subordinadas.

Se o tempo estiver acabando, escreva primeiro a última frase e depois preencha o que vem antes dela.

Exercícios comentados

Tente responder antes de abrir cada resposta. O comentário explica o raciocínio, que vale mais do que o gabarito.

1Aponte o erro: “Concluindo, a leitura é importante. Além disso, as bibliotecas públicas deveriam ter horários mais amplos, porque muita gente trabalha de dia.”Ver resposta

Resposta: Ideia nova na conclusão: o argumento sobre os horários das bibliotecas aparece pela primeira vez no fecho, sem ter sido desenvolvido.

Comentário: Se a ideia dos horários é boa, ela merece um parágrafo de desenvolvimento. Na conclusão, fica sem sustentação e desvia a atenção da tese. Além disso, “concluindo” só avisa o óbvio.

2Reescreva a conclusão evitando copiar a tese: Introdução: “O ensino a distância amplia o acesso à universidade.” Conclusão atual: “Portanto, o ensino a distância amplia o acesso à universidade.”Ver resposta

Resposta: Exemplo: “Para quem mora longe dos campi ou trabalha em horário comercial, a aula gravada não é uma versão piorada da presencial: é a única que existe. Ampliar o acesso, nesse caso, significa reconhecer que o aluno típico já não é o que pode se mudar para estudar.”

Comentário: A reescrita mantém a tese, mas a reformula com o que o desenvolvimento teria mostrado: o perfil do aluno que depende da modalidade. “Única que existe” é mais forte do que “amplia o acesso”.

3Classifique o fecho como síntese, projeção ou proposta: “Se nada mudar, em poucos anos a feira do bairro será lembrada como as mercearias de esquina: algo de que todos gostavam e ninguém frequentava.”Ver resposta

Resposta: Projeção: o fecho aponta o que tende a acontecer se o quadro atual se mantiver.

Comentário: A projeção funciona porque é plausível e se apoia numa comparação concreta (as mercearias). Não é catastrófica nem genérica; decorre do argumento de que a feira perde público.

4Transforme o apelo vazio em proposta específica: “É preciso conscientizar a população sobre o descarte correto do lixo eletrônico.”Ver resposta

Resposta: Exemplo: “As prefeituras, em parceria com as lojas que vendem eletrônicos, podem instalar pontos de coleta nos próprios estabelecimentos, com cartazes que informem o que pode ser deixado ali, de modo que o descarte correto seja tão fácil quanto a compra.”

Comentário: A proposta ganha agente (prefeituras e lojas), ação (pontos de coleta), meio (cartazes) e finalidade (facilitar o descarte). “Conscientizar a população” não diz quem faz nem como.

Resumo do artigo

  • A conclusão fecha o raciocínio e deixa algo com o leitor; não precisa resumir cada parágrafo.
  • Retomar a tese é reafirmá-la com o que o desenvolvimento acrescentou, não copiá-la.
  • Síntese, projeção e proposta são as três formas de fecho.
  • Ideia nova, apelo vazio, final abrupto e pergunta retórica são os erros mais comuns do último parágrafo.

Perguntas frequentes

É errado começar a conclusão com “portanto”?

Não é errado, mas é desnecessário quando o parágrafo retoma a tese com clareza. Se usar, integre-o à frase em vez de deixá-lo isolado.

A conclusão pode ter só duas linhas?

Pode, desde que retome a posição e feche o raciocínio. Uma conclusão curta e completa vale mais do que uma longa que só repete.

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