Concordância verbal: os casos que mais confundem
Quase ninguém erra a concordância em “o ônibus atrasou” ou “os ônibus atrasaram”. O problema aparece quando o sujeito fica longe do verbo, vem depois dele, é formado por mais de um núcleo ou envolve expressões como “a maioria de”, “um dos que” e porcentagens. Nesses casos, o ouvido falha, e a regra precisa ser consultada com calma. Este artigo reúne as situações que mais aparecem em redações, e-mails e provas, explica o raciocínio por trás de cada uma e termina com exercícios comentados.
Antes de tudo: ache o sujeito
Concordância verbal é simples de definir: o verbo combina em número e pessoa com o sujeito. A dificuldade está em identificar quem é o sujeito de verdade. Um truque confiável é perguntar ao verbo “quem?” ou “o quê?”. A resposta é o sujeito, e é com ela que o verbo precisa combinar, não com a palavra que está mais perto.
Sujeito composto: antes e depois do verbo
Quando dois ou mais núcleos formam o sujeito e vêm antes do verbo, o verbo vai para o plural. Se os núcleos forem de pessoas diferentes, prevalece a primeira pessoa sobre a segunda e a segunda sobre a terceira: “eu e você vamos”, “você e ela irão”.
Quando o sujeito composto vem depois do verbo, surge uma escolha: o verbo pode ir ao plural, concordando com o conjunto, ou ficar no singular, concordando apenas com o núcleo mais próximo. As duas formas são aceitas pela norma-padrão; a diferença é de ênfase.
Núcleos ligados por “ou” pedem atenção ao sentido: se a ação só cabe a um deles, verbo no singular (“Marcos ou Lúcia será o representante da turma”); se inclui ambos, plural (“Chuva ou vento derrubam essa barraca”).
“A maioria de”, “parte de” e porcentagens
Expressões partitivas como “a maioria de”, “grande parte de”, “metade de” e “boa parte de”, seguidas de um substantivo no plural, admitem duas concordâncias: o verbo no singular, combinando com o núcleo da expressão, ou no plural, combinando com o substantivo que a acompanha. Ambas estão corretas; o plural costuma realçar as pessoas ou coisas envolvidas.
Com porcentagens, o verbo concorda com o número ou com o substantivo que vem depois dele: “vinte por cento da turma faltou” e “vinte por cento da turma faltaram” são aceitáveis. Quando o número vem sozinho, o verbo concorda com ele: “Trinta por cento responderam ao questionário”. E quando a porcentagem vem precedida de artigo ou pronome, a concordância é obrigatoriamente com o número: “Os dez por cento restantes chegam amanhã”.
“Haver” e “fazer”: quando o verbo não tem sujeito
O verbo haver, no sentido de existir ou de tempo decorrido, é impessoal: não tem sujeito e fica sempre na terceira pessoa do singular. O mesmo vale para fazer indicando tempo ou clima. A expressão que vem depois é objeto direto, não sujeito, por isso não puxa o verbo para o plural.
A impessoalidade se transmite ao auxiliar de uma locução: escreva “deve haver vagas”, “vai fazer três anos”, e não “devem haver vagas” ou “vão fazer três anos”. Já o verbo existir tem sujeito e varia normalmente: “existem vagas”, “existiam dúvidas”.
O pronome “se” e a armadilha do singular
Com verbos transitivos diretos, o “se” funciona como partícula apassivadora: a frase equivale a uma voz passiva, e o termo que parece objeto é, na verdade, o sujeito. Por isso o verbo concorda com ele. “Vendem-se apartamentos” corresponde a “apartamentos são vendidos”.
Quando o verbo é transitivo indireto, intransitivo ou de ligação, o “se” indetermina o sujeito, e o verbo fica obrigatoriamente no singular: “Precisa-se de voluntários”, “Vive-se bem neste bairro”, “Trata-se de casos antigos”. Se não dá para transformar em passiva (“voluntários são precisados” não existe), o singular está certo.
“Um dos que” e outros sujeitos enganosos
Na construção “um dos que”, o pronome “que” retoma o grupo inteiro, não apenas o “um”. Por isso a concordância preferida na escrita formal é o plural: “Ela foi uma das que mais ajudaram na mudança”. O singular aparece na fala, mas é melhor evitá-lo em textos formais.
Outros casos merecem um olhar rápido:
- Pronomes “que” e “quem” como sujeito: com “que”, o verbo concorda com o antecedente (“fui eu que paguei”); com “quem”, fica na terceira pessoa do singular ou concorda com o antecedente (“fui eu quem pagou” ou “fui eu quem paguei”).
- “Mais de um”: verbo no singular (“Mais de um candidato desistiu”), salvo com ideia de reciprocidade (“Mais de um colega se abraçaram”).
Exercícios comentados
Tente responder antes de abrir cada resposta. O comentário explica o raciocínio, que vale mais do que o gabarito.
1Complete com a forma adequada do verbo entre parênteses: “A lista de convidados da festa ainda não (chegar) ao buffet.”Ver resposta
Resposta: chegou
Comentário: O sujeito é “a lista”, no singular. “Convidados” e “festa” apenas especificam a lista e não interferem na concordância.
2Está correta a frase “Fazem cinco meses que o elevador do prédio não funciona”? Justifique.Ver resposta
Resposta: Não. O correto é “Faz cinco meses que o elevador do prédio não funciona”.
Comentário: “Fazer” indicando tempo decorrido é impessoal e permanece na terceira pessoa do singular. “Cinco meses” não é sujeito, por isso não leva o verbo ao plural.
3Reescreva a placa “Vende-se bicicletas usadas” corrigindo a concordância, e explique a razão.Ver resposta
Resposta: Vendem-se bicicletas usadas.
Comentário: “Vender” é transitivo direto, logo o “se” é apassivador e “bicicletas usadas” é o sujeito. A frase equivale a “bicicletas usadas são vendidas”, daí o plural.
4Escolha a opção adequada à norma-padrão: “Precisa-se / Precisam-se de atendentes para o fim de semana.”Ver resposta
Resposta: Precisa-se de atendentes para o fim de semana.
Comentário: “Precisar” é transitivo indireto (precisar de). Com esse tipo de verbo, o “se” indetermina o sujeito, e o verbo fica no singular. Não há voz passiva possível aqui.
5Corrija, se necessário: “Meu primo foi um dos que mais torceu pela seleção do bairro.”Ver resposta
Resposta: Meu primo foi um dos que mais torceram pela seleção do bairro.
Comentário: O “que” se refere ao grupo dos que torceram, e não apenas ao primo. Na escrita formal, a concordância no plural é a mais segura e a mais aceita.
Resumo do artigo
- O verbo concorda com o núcleo do sujeito, não com a palavra mais próxima dele.
- Sujeito composto antes do verbo exige plural; depois do verbo, aceita plural ou concordância com o núcleo mais próximo.
- “A maioria de” e porcentagens com substantivo admitem singular ou plural; porcentagem com artigo concorda com o número.
- “Haver” (existir ou tempo) e “fazer” (tempo ou clima) são impessoais e ficam no singular, inclusive quando têm auxiliar.
- Com verbo transitivo direto, o “se” é apassivador e o verbo concorda com o sujeito paciente; com os demais verbos, fica no singular.
Perguntas frequentes
“Houveram problemas” está errado?
Está. “Haver” no sentido de existir é impessoal, então a forma correta é “houve problemas”, mesmo que o complemento esteja no plural.
Posso escrever “a maioria dos alunos chegaram”?
Pode. A concordância com “alunos” é aceita pela norma-padrão. Também é correto “a maioria dos alunos chegou”. Escolha uma forma e seja coerente.
