Proposta de intervenção: como montar uma solução completa
Faltam quatro linhas, o relógio aperta e a frase que sai é sempre a mesma: “o governo deve investir mais e a população deve se conscientizar”. Essa conclusão genérica custa caro, porque é a parte do texto em que o avaliador espera ver uma solução pensada, e não um desejo vago. Neste artigo, o site Redação Popular mostra como montar uma proposta de intervenção completa, encaixada nos argumentos que você já defendeu, com exemplos próprios de versões fracas e fortes.
Para que serve o último parágrafo
No texto dissertativo-argumentativo do ENEM, a conclusão não é só um fechamento: ela precisa trazer uma proposta de intervenção, uma ação concreta para enfrentar o problema discutido. É a quinta competência da correção, e espera-se que a solução seja coerente com a tese, detalhada e respeitosa com os direitos humanos. A descrição oficial dos níveis está na cartilha do participante, que vale a pena ler antes de treinar.
Pense na proposta como a resposta à pergunta “e agora, o que fazer?”. Se o desenvolvimento mostrou que o problema tem certas causas, a proposta deve atacar essas causas; uma conclusão sem relação com os argumentos fica “solta” e perde força.
Os cinco elementos de uma proposta completa
Uma forma prática de não esquecer nada é responder a cinco perguntas, uma para cada elemento observado na avaliação da proposta.
| Elemento | Pergunta que responde | Exemplo (tema: filas nos postos de saúde do bairro) |
|---|---|---|
| Agente | Quem vai agir? | as secretarias municipais de saúde |
| Ação | O que vai ser feito? | implantar agendamento por telefone e aplicativo |
| Meio ou modo | Como, por qual caminho? | por meio de parceria com as unidades básicas |
| Finalidade | Para quê, com que objetivo? | a fim de reduzir a espera e distribuir melhor o atendimento ao longo do dia |
| Detalhamento | Que detalhe torna isso concreto? | reservando horários para idosos e pessoas que não têm acesso à internet |
O detalhamento é o elemento que mais falta nos textos. Pode ser uma explicação de como a ação funciona, um exemplo ou uma justificativa; o importante é acrescentar informação, não repetir o que já foi dito.
A proposta nasce dos argumentos, não do nada
O erro mais comum depois da proposta genérica é a proposta desconectada: o texto discute uma causa e a conclusão ataca outra. Para evitar isso, releia os parágrafos de desenvolvimento e anote no rascunho a causa central que cada um apontou. A proposta deve responder a pelo menos uma delas, de preferência à mais importante.
Quando o desenvolvimento aponta mais de uma causa, você pode fazer uma proposta para cada uma, mas uma proposta bem detalhada vale mais do que três pela metade.
Versões fracas e fortes lado a lado
- Escreva a proposta no rascunho em forma de lista: agente, ação, meio, finalidade, detalhe.
- Transforme a lista em um ou dois períodos, ligando os elementos com “por meio de”, “a fim de”, “de modo que”.
O limite que não se pode cruzar: os direitos humanos
A proposta precisa respeitar os direitos humanos: nada de soluções baseadas em violência, humilhação, discriminação, exclusão de grupos ou punições desproporcionais. O critério não limita a sua opinião sobre o tema; limita o tipo de ação proposta. Defender mais rigor na aplicação de uma lei é legítimo; defender castigos cruéis ou a retirada de direitos de um grupo não é.
Exercícios comentados
Tente responder antes de abrir cada resposta. O comentário explica o raciocínio, que vale mais do que o gabarito.
1Identifique os elementos presentes e ausentes nesta proposta: “O Ministério da Saúde deve criar campanhas sobre alimentação saudável nas escolas.”Ver resposta
Resposta: Há agente (Ministério da Saúde), ação (criar campanhas) e um indício de meio (nas escolas). Faltam finalidade e detalhamento.
Comentário: A proposta está incompleta. Bastaria acrescentar “para que as crianças aprendam a montar refeições equilibradas” (finalidade) e “com oficinas práticas na hora do lanche” (detalhamento) para fechá-la.
2O desenvolvimento de um texto argumenta que o trânsito da cidade piora porque faltam ciclovias e o transporte coletivo é caro. A conclusão propõe “campanhas educativas sobre direção defensiva”. O que está errado?Ver resposta
Resposta: A proposta é desconectada dos argumentos: não trata de ciclovias nem do preço do transporte.
Comentário: Direção defensiva é um tema legítimo, mas o texto não a discutiu. Uma proposta coerente falaria de ampliação das ciclovias pela prefeitura e de políticas de tarifa, as causas apontadas.
3Reescreva, com os cinco elementos, a proposta “as pessoas precisam ler mais”.Ver resposta
Resposta: Resposta possível: “As prefeituras, em parceria com as escolas, devem instalar pontos de empréstimo de livros em terminais de ônibus e postos de saúde, com acervo renovado a cada mês, a fim de levar a leitura aos lugares onde as pessoas já passam tempo esperando.”
Comentário: A frase original é um desejo sem agente nem ação. A reescrita define quem faz, o que faz, como (em terminais e postos, com acervo renovado) e para quê (aproveitar o tempo de espera).
4Avalie esta proposta quanto aos direitos humanos: “Para reduzir o número de moradores de rua no centro, a guarda municipal deve retirá-los à força e levá-los para fora da cidade.”Ver resposta
Resposta: A proposta fere os direitos humanos: usa a força contra um grupo vulnerável e o exclui do espaço urbano em vez de enfrentar as causas do problema.
Comentário: Além de desrespeitar a dignidade das pessoas, a proposta só desloca a situação. Uma alternativa aceitável envolveria assistência social, abrigos com vagas suficientes e programas de moradia e trabalho.
Resumo do artigo
- A proposta de intervenção é a solução concreta para o problema discutido e deve responder às causas apontadas no desenvolvimento.
- Confira os cinco elementos: agente, ação, meio ou modo, finalidade e detalhamento; o detalhamento é o que mais costuma faltar.
- Nenhuma solução pode envolver violência, humilhação, discriminação ou retirada de direitos.
Perguntas frequentes
A proposta de intervenção precisa estar no último parágrafo?
É o lugar mais natural e o mais seguro, porque a conclusão retoma a tese e fecha o texto com a solução; espalhá-la pelo desenvolvimento dificulta que o avaliador a identifique completa.
Posso usar “o governo” como agente?
Pode, mas é vago. Quanto mais específico o agente (Ministério da Educação, prefeituras, secretarias de saúde), mais a proposta parece viável.
