Pular para o conteúdo
Gêneros textuais

Narrativa e relato pessoal: contar bem uma história

Leitura de 7 min•4 exercícios comentados•

Contar uma história parece a coisa mais natural do mundo: fazemos isso no almoço de domingo, na mensagem de voz, na fila do banco. No papel, porém, a mesma história costuma sair arrastada, sem clima e sem fim. A diferença entre contar e contar bem está em decisões técnicas que qualquer pessoa pode aprender. Neste artigo, você vê os elementos da narrativa, entende por que toda história precisa de conflito, aprende a mostrar em vez de contar e descobre o que separa o conto do relato pessoal.

Os cinco elementos de toda narrativa

Qualquer texto narrativo, da piada ao romance, se apoia em cinco elementos. O enredo é a sequência de acontecimentos; a personagem é quem age ou sofre a ação; o tempo situa quando e em que ritmo as coisas acontecem; o espaço é o lugar, físico ou social; o narrador é a voz que conta. Nenhum deles é decorativo: quando um falha, o leitor sente, mesmo sem saber nomear o problema.

  • Enredo: começo que apresenta a situação, meio em que algo se complica, fim em que a complicação se resolve ou se transforma.
  • Personagem: precisa querer alguma coisa; o desejo a move.
  • Tempo: cronológico ou com saltos (lembranças, antecipações).
  • Espaço: mais do que cenário, influencia o que acontece.
  • Narrador: em primeira pessoa (participa) ou em terceira (observa).

Sem conflito não há história

O conflito é o obstáculo entre a personagem e o que ela quer. Pode ser externo (outra pessoa, a chuva, o ônibus que não passa) ou interno (medo, dúvida, vergonha). É o conflito que gera tensão e faz o leitor querer saber o que acontece depois. Uma narrativa em que tudo dá certo desde o início é um relatório, não uma história.

Evite
Acordei cedo, tomei café, peguei o ônibus, cheguei ao trabalho, trabalhei o dia todo e voltei para casa. Foi um dia bom.
Prefira
Acordei cedo para a entrevista. No ponto, descobri que tinha esquecido a carteira, e com ela o dinheiro da passagem. Faltavam quarenta minutos. Olhei para a moça ao lado e tentei achar as palavras.
Por quê: A primeira versão lista ações sem obstáculo. A segunda cria um desejo (chegar à entrevista), um obstáculo (sem dinheiro) e um prazo. O leitor quer saber se ela pede ajuda e se consegue.

O conflito não precisa ser grandioso. Em relatos pessoais, os melhores são pequenos e reconhecíveis: a primeira vez que falou em público, a briga com um irmão, a mudança de cidade. Basta que algo esteja em risco para quem vive a cena.

Mostrar em vez de contar

“Contar” é informar ao leitor o que sentir: “ela estava nervosa”. “Mostrar” é dar a ele os sinais e deixar que conclua: “ela conferiu o celular pela terceira vez em um minuto”. Mostrar produz cena; contar produz resumo. Os dois têm lugar, mas os momentos importantes pedem cena: ações, gestos, falas, detalhes sensoriais.

Evite
Meu avô era um homem muito generoso e todos gostavam dele.
Prefira
Meu avô saía da padaria com dois pães a mais e, na esquina, já não tinha nenhum. Nunca o vi explicar para quem eram.
Por quê: A versão corrigida não usa “generoso”, mas o leitor chega à palavra sozinho, porque viu o gesto. O detalhe final acrescenta discrição ao retrato.

Um teste simples: sublinhe os adjetivos de estado (nervosa, feliz, triste) e substitua cada um por uma ação ou um detalhe que o demonstre. Não é preciso eliminar todos; basta que os momentos decisivos sejam mostrados.

Tempo verbal e voz do narrador

A narrativa em português usa o pretérito perfeito para as ações principais (“abriu a porta”, “gritou”) e o pretérito imperfeito para o cenário e as ações habituais ou em andamento (“chovia”, “ele sempre chegava atrasado”). Saltar para o presente no meio da cena quebra a ilusão. O presente pode ser usado, mas como escolha mantida do início ao fim.

Evite
Eu estava na fila quando o segurança chega e pede meu documento. Eu mostrei e ele olha desconfiado.
Prefira
Eu estava na fila quando o segurança chegou e pediu meu documento. Mostrei, e ele olhou desconfiado.
Por quê: A versão original alterna passado e presente na mesma cena. A corrigida mantém o imperfeito para o fundo (“estava na fila”) e o perfeito para as ações que avançam.

Quanto ao narrador, a primeira pessoa aproxima e limita: o leitor só sabe o que o narrador sabe. A terceira dá liberdade para alternar personagens e revelar pensamentos. No relato pessoal, a primeira pessoa é a regra; no conto, as duas funcionam.

Conto e relato pessoal: parentes diferentes

O conto é ficção: personagens, acontecimentos e espaço podem ser inventados, e a estrutura tende a ser fechada, com um conflito que se resolve numa virada. O relato pessoal narra algo vivido por quem escreve, ainda que a memória selecione e reorganize. O relato aceita reflexão explícita (“hoje entendo que”); o conto prefere que o sentido fique nas ações.

AspectoContoRelato pessoal
NaturezaFicçãoExperiência vivida
NarradorPrimeira ou terceira pessoaPrimeira pessoa
EstruturaConflito e virada bem marcadosMais livre, segue a memória
Reflexão do autorImplícita nas cenasPode aparecer explicitamente
Exemplo
Tinha nove anos quando meu pai me deixou pagar o pão sozinho. Entrei segurando a nota como se fosse voar. O padeiro me olhou por cima do balcão e perguntou: “E o seu pai?”. Apontei para a porta, e ele riu. Saí com o troco contado três vezes e a certeza de que agora era gente grande. Hoje penso que meu pai ficou do lado de fora não porque confiava em mim, mas porque queria ver.
Por quê: Há personagem com desejo (provar que consegue), conflito mínimo (o olhar do padeiro), cena mostrada (nota segurada, troco contado) e reflexão final explícita, marca do relato. No conto, a última frase seria cortada.

Exercícios comentados

Tente responder antes de abrir cada resposta. O comentário explica o raciocínio, que vale mais do que o gabarito.

1Identifique o conflito nesta situação e, se não houver, crie um: “Fui ao mercado, comprei frutas e voltei para casa.”Ver resposta

Resposta: Não há conflito. Exemplo de criação: “Fui ao mercado com o dinheiro contado e, no caixa, descobri que as frutas tinham subido de preço. Tive de escolher o que devolver com a fila inteira olhando.”

Comentário: A frase original é uma sequência de ações sem obstáculo. Com um limite (dinheiro contado) e uma pressão (fila olhando), algo passa a estar em jogo, e o leitor quer saber o que a personagem devolve.

2Reescreva mostrando, em vez de contar: “Minha irmã ficou muito brava quando viu a bagunça no quarto.”Ver resposta

Resposta: Exemplo: “Minha irmã parou na porta do quarto, respirou fundo, recolheu uma meia do chão e a colocou sobre a minha mesa sem dizer uma palavra.”

Comentário: A reescrita elimina “muito brava” e entrega gestos que o leitor interpreta sozinho. O silêncio e a meia sobre a mesa comunicam a raiva contida melhor do que o adjetivo.

3Corrija a mistura de tempos verbais: “Naquela tarde, chovia muito. De repente, a luz acaba e minha mãe acendeu uma vela.”Ver resposta

Resposta: “Naquela tarde, chovia muito. De repente, a luz acabou e minha mãe acendeu uma vela.”

Comentário: “Chovia” (imperfeito) descreve o fundo da cena, e as ações que avançam a história devem ficar no perfeito: “acabou”, “acendeu”. O presente “acaba” quebra a sequência temporal.

4Um texto em primeira pessoa narra uma viagem de ônibus na qual o narrador reencontra um antigo professor e termina com “percebo hoje que aquela conversa mudou meu caminho”. É conto ou relato pessoal?Ver resposta

Resposta: Relato pessoal: primeira pessoa, experiência apresentada como vivida e reflexão explícita no fim.

Comentário: A reflexão explícita (“percebo hoje que”) é marca do relato. Um conto poderia ter o mesmo enredo, mas tenderia a deixar o sentido na cena final, sem o comentário do narrador.

Resumo do artigo

  • Toda narrativa se apoia em enredo, personagem, tempo, espaço e narrador.
  • O conflito é o obstáculo entre a personagem e o que ela quer; sem ele, não há história.
  • Mostrar (ações, gestos, detalhes) convence mais do que contar (adjetivos de estado).
  • O conto é ficção; o relato narra o vivido e admite reflexão explícita.

Perguntas frequentes

Posso inventar detalhes em um relato pessoal?

Pequenos ajustes de memória são inevitáveis, mas o compromisso é com a experiência real. Se precisar inventar o essencial, escreva um conto.

Narrar no presente é errado?

Não. O presente dá imediatismo, desde que seja mantido do começo ao fim. O erro é alternar presente e passado sem intenção.

Leia também

Artigos que conversam com este tema.